Cientistas anunciaram uma nova lula vampiro em 2024 e dois anos depois descobriram que ela talvez nunca tenha existido
Uma revisão publicada em 2026 concluiu que a suposta segunda espécie de lula-vampiro era, na verdade, a já conhecida Vampyroteuthis infernalis.
Por mais de um século, a lula-vampiro ocupou um lugar quase solitário na árvore da vida, como única representante viva conhecida de sua antiga linhagem. Em 2024, isso pareceu mudar com o anúncio de uma segunda espécie. Dois anos depois, porém, uma nova análise trouxe a surpresa: a “novidade” provavelmente era a velha conhecida Vampyroteuthis infernalis.

Por que os cientistas pensaram ter encontrado outra espécie?
A história começou com um exemplar coletado no Mar da China Meridional em 2016, entre 800 e 1.000 metros de profundidade. No estudo publicado em 2024 na revista Zoological Systematics, Dajun Qiu e colegas propuseram o nome Vampyroteuthis pseudoinfernalis para o animal.
O espécime parecia trazer diferenças importantes em relação à Vampyroteuthis infernalis. Os pesquisadores destacaram uma extremidade pontiaguda no manto, alterações no bico inferior e outra posição dos fotóforos, órgãos relacionados à produção de luz. Análises de sequências genéticas também pareciam sustentar a separação.

O que fez a nova espécie desaparecer?
Em 2026, um trabalho publicado no Bulletin of Marine Science reexaminou a proposta. A equipe, que incluiu o especialista em cefalópodes Michael Vecchione, ligado ao Smithsonian, voltou aos caracteres anatômicos e refez análises filogenéticas usando os dados disponíveis. O resultado não sustentou uma segunda espécie.
Segundo o estudo de Heather Judkins e colaboradores, nenhuma das árvores filogenéticas analisadas apoiou V. pseudoinfernalis como espécie distinta. Os autores também apontaram que havia variação dentro da própria lula-vampiro e recomendaram novas coletas no Mar da China Meridional para investigar melhor essas diferenças.
O que torna a lula-vampiro tão incomum?
A reclassificação não deixou a descoberta menos fascinante. A Vampyroteuthis infernalis é um cefalópode de águas profundas adaptado a regiões com pouquíssimo oxigênio. O Monterey Bay Aquarium Research Institute, o MBARI, registra animais com até cerca de 30 centímetros e destaca sua alimentação baseada principalmente em neve marinha.
- Vive principalmente em águas profundas e pobres em oxigênio.
- Coleta neve marinha formada por partículas orgânicas que afundam da superfície.
- Possui oito braços ligados por uma membrana que lembra uma capa.
- Pode liberar fluido bioluminescente para confundir predadores em vez de usar tinta.
O nome assustador também engana. Em vez de perseguir grandes presas, o animal usa filamentos longos e pegajosos para recolher partículas que descem pela coluna d’água. Quando ameaçado, pode ainda envolver o corpo com a membrana dos braços e recorrer à bioluminescência como distração.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Coruj4 Curios4 mostrando a misteriosa lula-vampiro no fundo do oceano.
Como diferenças reais acabaram confundindo a classificação?
O ponto central da revisão não é que os primeiros pesquisadores tenham simplesmente “errado”, mas que definir espécies de animais raros das profundezas exige evidências consistentes. A proposta de 2024 nasceu de diferenças anatômicas e genéticas observadas em um número limitado de exemplares, algo que naturalmente convida a novas comparações.
Ao ampliar a análise, a equipe de 2026 concluiu que os dados não separavam os animais em duas linhagens confiáveis. Características usadas inicialmente como sinais de uma nova espécie não se mostraram suficientes, e os resultados genéticos também falharam em formar um grupo distinto para V. pseudoinfernalis.
A lula-vampiro voltou a ficar sozinha em sua linhagem
Hoje, bases taxonômicas como o World Register of Marine Species tratam Vampyroteuthis pseudoinfernalis como um sinônimo júnior de Vampyroteuthis infernalis. Isso significa que o nome permanece no registro científico, mas não representa uma espécie válida separada da lula-vampiro já conhecida.
O episódio mostra por que a ciência pode ficar ainda mais interessante quando muda de ideia. Descobertas não terminam quando um nome é publicado: elas continuam sendo testadas. E, nas profundezas onde poucos exemplares chegam às mãos dos pesquisadores, a próxima criatura familiar ainda pode voltar a surpreender assim que novas evidências vierem à superfície.