Cientistas descobriram uma lagarta que veste os restos mortais de outros insetos e vive dentro de teias de aranha sem virar comida

Lagarta descoberta no Havaí utiliza restos de insetos encontrados em teias de aranha para construir uma proteção portátil.

Numa teia de aranha no Havaí, uma lagarta usa uma casa portátil de seda revestida de asas, pernas e cabeças de insetos mortos. Enquanto a aranha permanece por perto, ela aproveita presas capturadas na teia e ainda evita virar comida. Pesquisadores da Universidade do Havaí descreveram essa linhagem de Hyposmocoma em 2025, encontrada numa área pequena de Oahu. O apelido “colecionadora de ossos” é chamativo, mas a estrutura é feita de restos externos de artrópodes, não de ossos. Como esse abrigo funciona?

Espécie surpreendente aproveita materiais encontrados dentro de teias de aranha.
Espécie surpreendente aproveita materiais encontrados dentro de teias de aranha.Imagem gerada por inteligência artificial

Onde a lagarta foi encontrada?

A equipe observou a espécie em teias dentro de cavidades, como troncos e rochas, na cadeia de Waiʻanae, na ilha de Oahu. A ocorrência conhecida ocupa uma área de aproximadamente 15 quilômetros quadrados. Não significa que cada teia do Havaí tenha uma dessas lagartas; a distribuição documentada é restrita, e o animal é raro até para pesquisadores que trabalham na região.

A lagarta pertence ao gênero Hyposmocoma, cujas espécies produzem abrigos portáteis de seda. Esta se destaca pelo material que fixa ao próprio abrigo e por conviver com aranhas. Cientistas Dan Rubinoff, Michael San Jose e Camiel Doorenweerd associaram as observações de campo a estudos de exemplares para descrever o comportamento e sua história evolutiva.

Camuflagem feita com restos de presas ajuda lagarta a sobreviver.
Camuflagem feita com restos de presas ajuda lagarta a sobreviver.Imagem gerada por inteligência artificial

O que ela prende ao abrigo de seda?

Pedaços de insetos encontrados na teia, incluindo asas, pernas e cabeças. Os pesquisadores observaram a escolha e o ajuste de partes antes de prendê-las ao estojo com seda. A estrutura funciona como uma casa transportada pelo corpo, não como roupa costurada sobre a pele. Alguns abrigos incluem também restos de muda da aranha.

O material pode cumprir mais de uma função, mas é preciso distinguir o que foi observado da explicação proposta:

  • O abrigo portátil é feito de seda pela própria lagarta.
  • Partes de insetos e mudas de aranha são fixadas por fora.
  • A larva procura alimento entre presas da teia.
  • A camuflagem diante da aranha é uma hipótese plausível.

Ela realmente come outros insetos?

Sim. Ao contrário da maioria das lagartas herbívoras, essa espécie se alimenta oportunisticamente de insetos debilitados ou mortos na teia. Pode chegar a romper fios de seda para alcançar alimento. O termo carnívora descreve essa dieta, mas não significa que ela ataque aranhas grandes ou domine o ninho. Sua sobrevivência depende de permanecer junto a uma predadora perigosa.

A camuflagem defensiva em outras lagartas ajuda a compreender como formas e materiais podem alterar um encontro com predadores, mas aqui a hipótese envolve o estojo coberto de restos de presas. Os pesquisadores ainda investigam quanto o disfarce reduz a detecção pela aranha.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube University of Hawaiʻi, que apresenta imagens da lagarta colecionadora de restos de insetos e o abrigo portátil observado pela equipe:

Por que a aranha não a captura?

Ainda não há uma resposta única comprovada. Revestir o estojo com partes de presas e mudas da aranha pode torná-lo menos reconhecível, seja pela aparência, seja por sinais químicos ou táteis. Os pesquisadores não encontraram exemplares capturados pelas aranhas nas observações relatadas, mas a ausência desses casos não demonstra proteção absoluta em todos os encontros.

A lagarta aproveita o ambiente que a aranha constrói e abastece de insetos. Essa proximidade cria uma troca desigual: a aranha não coopera deliberadamente, e a lagarta se beneficia das capturas. Em laboratório, o comportamento de escolher fragmentos de insetos em vez de outros materiais reforçou que o revestimento não é um depósito casual de sujeira da teia.

O que ameaça uma espécie tão restrita?

O número pequeno de registros e a distribuição conhecida em apenas parte de Oahu preocupam os pesquisadores. Alterações no habitat podem afetar não só a lagarta, mas as teias, presas e cavidades de que depende. Não há dados suficientes para estimar toda a população ou afirmar que a espécie ocorrerá em outras ilhas só porque parentes do gênero são mais difundidos.

O espanto inicial vem da aparência de “armadura de cadáveres”. O achado científico está em conectar esse abrigo a uma vida rara dentro de teias, com dieta carnívora e possível camuflagem. A espécie precisa de mais pesquisa e conservação do lugar onde foi encontrada. Sem a floresta e as relações entre insetos e aranhas, a estrutura extraordinária não teria onde funcionar.