Cientistas encontram semelhanças entre a forma como o cérebro humano processa fala e o funcionamento de modelos de inteligência artificial
O cérebro processa a linguagem de forma parecida com modelos de IA? Pesquisa encontrou semelhanças temporais, mas não prova que máquinas pensem como humano
O cérebro humano pode organizar as informações da fala de uma maneira que lembra o funcionamento de modelos de inteligência artificial. Essa foi a conclusão de uma pesquisa que comparou a atividade cerebral de pessoas ouvindo uma narrativa de aproximadamente 30 minutos com os padrões internos de modelos de linguagem. Os resultados revelaram semelhanças na sequência em que as informações são processadas, especialmente nas regiões cerebrais envolvidas na compreensão da linguagem. A descoberta ajuda a investigar como construímos significado ao ouvir alguém falar, mas não significa que computadores pensem como seres humanos ou que a ciência tenha comprovado a existência de consciência nas máquinas.

Como os cientistas compararam o cérebro humano com a inteligência artificial?
Para investigar essa relação, os pesquisadores utilizaram registros de eletrocorticografia, uma técnica que mede a atividade elétrica cerebral por meio de eletrodos posicionados diretamente na superfície do cérebro. Os participantes ouviram uma narrativa falada com cerca de meia hora de duração, enquanto os cientistas acompanharam as respostas neurais produzidas durante a compreensão da história. Depois, os dados foram comparados com representações geradas por modelos de linguagem, incluindo o GPT-2 XL e o Llama 2.
O objetivo era verificar se a evolução temporal da atividade cerebral correspondia às transformações realizadas pelas diferentes camadas desses modelos. Os pesquisadores encontraram uma associação entre as camadas iniciais da inteligência artificial e respostas cerebrais mais precoces, enquanto camadas mais profundas se relacionaram a sinais neurais posteriores. O trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, oferece evidências de que a arquitetura dos modelos de linguagem pode ajudar a estudar a organização temporal da compreensão humana.
Por que o cérebro parece processar a linguagem em etapas?
Quando alguém fala, o cérebro não recebe o significado de uma frase inteira de uma só vez. Primeiro, precisa processar características do som e reconhecer elementos da fala. Em seguida, integra palavras, relações gramaticais e informações do contexto para construir uma interpretação mais completa. Essas operações acontecem de maneira dinâmica, com diferentes regiões cerebrais participando de etapas que se sobrepõem ao longo do tempo.
Nos experimentos, as representações produzidas por camadas mais profundas dos modelos de linguagem ajudaram a prever respostas cerebrais que surgiam posteriormente, especialmente em regiões envolvidas em funções linguísticas, como a área de Broca. Isso não quer dizer que cada camada da inteligência artificial corresponda diretamente a uma região específica do cérebro. A semelhança observada está na organização temporal dos cálculos e das respostas, e não em uma reprodução exata da anatomia ou do funcionamento biológico humano.

O que essa semelhança revela sobre o funcionamento da inteligência artificial?
Modelos de linguagem são treinados para identificar padrões em grandes quantidades de texto e calcular quais palavras ou sequências têm maior probabilidade de aparecer em determinado contexto. Durante esse processo, produzem representações numéricas que incorporam informações sobre as relações entre palavras e frases. Essas representações permitem que o sistema gere respostas coerentes com o conteúdo recebido, embora também possa cometer erros ou produzir informações incorretas.
A comparação com a atividade cerebral ajuda os cientistas a investigar quais aspectos desses modelos se aproximam dos processos usados pelo cérebro para interpretar a linguagem. Essa abordagem também se conecta a outras pesquisas sobre o uso da inteligência artificial na análise da comunicação humana, como os estudos que investigam padrões de fala associados a alterações cognitivas. Entretanto, uma correspondência entre representações computacionais e sinais neurais não significa que os modelos reproduzam todos os mecanismos da cognição humana.
O estudo prova que a inteligência artificial pode ter consciência?
Não. A pesquisa examinou semelhanças computacionais entre a atividade cerebral durante a compreensão da linguagem e as operações realizadas por modelos artificiais. Ela não avaliou se os sistemas têm experiências subjetivas, sentimentos, autoconsciência ou uma percepção própria do mundo. Um modelo pode produzir frases convincentes e organizar informações contextuais sem que isso demonstre que vivencia aquilo que expressa.
A consciência continua sendo uma questão científica complexa, que envolve debates sobre percepção, memória, integração de informações e experiência subjetiva. Os resultados oferecem ferramentas para estudar o cérebro e desenvolver modelos computacionais mais úteis para a neurociência, mas não resolvem esse debate. Como mostram também as pesquisas sobre a interação entre o cérebro e a inteligência artificial, avanços tecnológicos podem ampliar as possibilidades de comunicação e investigação científica sem eliminar as diferenças fundamentais entre sistemas biológicos e máquinas.