Cientistas estavam testando um equipamento quando encontraram algo que os Estados Unidos enterraram no gelo há quase 60 anos
Em 2024, cientistas da NASA sobrevoavam a Groenlândia para testar um radar capaz de atravessar o gelo quando apareceu algo inesperado nas imagens
Em 2024, cientistas da NASA sobrevoavam a Groenlândia para testar um radar capaz de atravessar o gelo quando apareceu algo inesperado nas imagens: uma antiga base militar americana enterrada a pelo menos 30 metros de profundidade. Era o Camp Century, uma “cidade sob o gelo” abandonada em 1967 e cercada por um problema que atravessa gerações: resíduos químicos, combustíveis e materiais radioativos que permaneceram congelados junto às instalações.

O que era a cidade escondida sob o gelo?
O Exército dos Estados Unidos começou a construir Camp Century em 1959, abrindo uma rede de 21 túneis na camada de gelo do noroeste da Groenlândia. Os corredores somavam aproximadamente três quilômetros e abrigavam alojamentos, laboratórios, oficinas e outras estruturas necessárias para manter uma pequena comunidade funcionando em um dos ambientes mais extremos do planeta.
Oficialmente, o local era apresentado como uma instalação para pesquisas polares. Um estudo publicado em 2016 na Geophysical Research Letters, liderado por William Colgan, destaca que Camp Century também esteve ligado ao planejamento militar da Guerra Fria e a estudos sobre a possibilidade de instalar mísseis sob o gelo do Ártico.

Como a NASA encontrou os túneis por acidente?
Em abril de 2024, Chad Greene e outros pesquisadores voavam em um Gulfstream III a cerca de 240 quilômetros da Base Espacial Pituffik. O objetivo era testar o UAVSAR, radar de abertura sintética da NASA. Segundo Alex Gardner, cientista do Jet Propulsion Laboratory, a equipe procurava o fundo da camada de gelo quando Camp Century apareceu inesperadamente nos dados.
O novo instrumento conseguiu revelar estruturas individuais com uma definição que levantamentos anteriores não ofereciam. Ao comparar a imagem com mapas históricos, os pesquisadores perceberam que linhas paralelas coincidiam com partes da antiga rede subterrânea. A própria NASA ressaltou, porém, que a utilidade científica específica dessa imagem ainda estava sendo avaliada.
- A base começou a ser construída em 1959 dentro da camada de gelo da Groenlândia.
- Uma rede de 21 túneis formava aproximadamente três quilômetros de corredores subterrâneos.
- As estruturas sólidas estão hoje enterradas a pelo menos 30 metros abaixo da superfície.
- O radar UAVSAR revelou detalhes da instalação que não apareciam claramente em levantamentos anteriores.
Que resíduos permaneceram enterrados em Camp Century?
Quando a base foi abandonada, engenheiros acreditavam que a neve continuaria se acumulando e manteria os materiais sepultados indefinidamente. O estudo de Colgan e seus colegas estimou que ficaram no local cerca de 200 mil litros de diesel, águas residuais, materiais contendo PCBs e resíduos biológicos, distribuídos por uma extensa área sob o gelo.
Camp Century também utilizou o reator nuclear portátil PM-2A. Segundo o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, o equipamento foi desligado, desmontado e retirado da Groenlândia após seu período de operação. Mesmo assim, o estudo de 2016 identificou resíduos radioativos de baixa atividade associados à antiga instalação entre os materiais deixados no local.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube The Federal File mostrando mais detalhes do Camp Century.
O derretimento realmente pode trazer esse material à superfície?
Em 2016, pesquisadores modelaram o futuro climático da região e concluíram que, sob um cenário de emissões muito elevadas, seria plausível que o local passasse de um regime de acúmulo de neve para perda líquida de gelo ao longo das décadas seguintes. Nesse cenário, o material enterrado poderia eventualmente voltar a interagir com a água de degelo e o ambiente.
Isso não significa que os resíduos estejam prestes a aparecer. Estudos posteriores produziram projeções menos imediatas, e a própria NASA afirma que cientistas continuam usando medições de radar para estimar quando o afinamento do gelo poderia reexpor Camp Century. Portanto, o risco é de longo prazo e depende da evolução climática da região, não de um derretimento repentino da base.
Por que Camp Century voltou a preocupar décadas depois?
A base representa um problema que seus construtores dificilmente poderiam imaginar em 1959. Uma instalação planejada para permanecer congelada indefinidamente agora precisa ser analisada em um clima diferente daquele considerado durante sua construção. Ao mesmo tempo, radares modernos permitem acompanhar tanto os restos da base quanto as mudanças na espessura da camada de gelo.
Camp Century transformou-se, assim, de experimento militar em alerta histórico sobre decisões tomadas para durar além de uma geração. O que foi enterrado há quase 60 anos ainda precisa ser monitorado hoje. Acompanhar o gelo da Groenlândia não serve apenas para prever a elevação dos oceanos, mas também para descobrir quando o passado poderá voltar literalmente à superfície.