Cientistas examinaram o rosto de um homem morto há 100 mil anos e encontraram o primeiro sinal de violência entre humanos

Uma marca quase invisível em um maxilar de 100 mil anos revelou uma história de agressão, sobrevivência e cuidado entre os primeiros Homo sapiens.

Uma marca quase invisível em um maxilar de 100 mil anos revelou uma história de agressão, sobrevivência e cuidado entre os primeiros Homo sapiens. Encontrado na caverna de Qafzeh, em Israel, o esqueleto de um homem adulto apresenta uma lesão provocada por um objeto afiado, considerada uma das evidências mais antigas de possível violência interpessoal com esse tipo de instrumento.

O indivíduo, identificado como Qafzeh 25, fazia parte de um conjunto de fósseis humanos descobertos em escavações realizadas na caverna.
O indivíduo, identificado como Qafzeh 25, fazia parte de um conjunto de fósseis humanos descobertos em escavações realizadas na caverna. - Imagem gerada por IA

O que os cientistas encontraram no esqueleto?

O indivíduo, identificado como Qafzeh 25, fazia parte de um conjunto de fósseis humanos descobertos em escavações realizadas na caverna. A nova análise identificou uma lesão linear no lado esquerdo da mandíbula, atingindo também um pré-molar e avançando em direção à maxila, o que indica um impacto forte e localizado.

O estudo “A taphonomic reassessment of Qafzeh 25 and its implications for violence, health and funerary practices”, publicado em 2026 na revista Scientific Reports, aponta que o ferimento é compatível com um golpe produzido por um objeto cortante de pedra. A ferramenta exata, porém, não foi encontrada junto ao esqueleto.

Análise de maxilar ancestral identifica forte impacto provocado por objeto afiado.
Análise de maxilar ancestral identifica forte impacto provocado por objeto afiado. - Ana Pantoja et al. & Thilo Parg

Como a tecnologia revelou o antigo ferimento?

A equipe formada por pesquisadores espanhóis e israelenses combinou observações macroscópicas, microscópicas e exames de microtomografia computadorizada. A técnica conhecida como micro-CT produz imagens detalhadas das estruturas internas do osso e do dente sem danificar o fóssil, permitindo acompanhar a extensão da lesão.

A investigação encontrou porosidade localizada e espessamento nas margens do ferimento, características associadas à remodelação óssea. Esses sinais mostram que a lesão começou a cicatrizar. Portanto, o homem não morreu imediatamente após o episódio e provavelmente continuou vivo por algum tempo depois de sofrer o golpe.

Por que os pesquisadores suspeitam de violência?

A localização e o formato do trauma não combinam facilmente com danos naturais ocorridos após o sepultamento. O exame completo do esqueleto também permitiu descartar explicações como ação de animais, alterações do solo ou deterioração posterior. A posição da marca no lado esquerdo do rosto reforçou a hipótese de uma agressão direta.

Os principais elementos que sustentam essa interpretação são:

  • Lesão linear compatível com um objeto afiado
  • Dano contínuo na mandíbula e em um pré-molar
  • Localização no lado esquerdo da face
  • Sinais de cicatrização e remodelação do osso
  • Ausência de alterações semelhantes causadas após a morte

    Formato do trauma e localização na face sustentam hipótese de agressão direta.
    Formato do trauma e localização na face sustentam hipótese de agressão direta. - Ana Pantoja e outros.

É realmente a primeira violência entre humanos?

O achado não representa a primeira evidência absoluta de violência na história humana. Fósseis mais antigos, como os da Sima de los Huesos, na Espanha, já apresentaram traumas interpretados como agressões há cerca de 430 mil anos. O caso de Qafzeh se destaca como uma das evidências mais antigas de ferimento por objeto afiado em humanos modernos.

Os próprios autores adotam uma conclusão cuidadosa e descrevem o caso como possível violência interpessoal. Essa cautela é importante porque nenhum fóssil preserva toda a sequência de acontecimentos. Ainda assim, a anatomia do trauma, a profundidade da marca e a exclusão de causas posteriores tornam a hipótese de agressão especialmente consistente.

O ferimento também revela cuidado e solidariedade

Sobreviver a uma lesão dolorosa na mandíbula provavelmente dificultou a alimentação e exigiu um período de recuperação. Embora não seja possível reconstruir todos os cuidados recebidos, a cicatrização sugere que o homem teve condições para permanecer vivo. O sepultamento deliberado na caverna também reforça a existência de práticas funerárias naquele grupo.

Segundo os pesquisadores, os resultados acrescentam novos dados ao debate sobre violência, cuidado com pessoas feridas e costumes funerários no Paleolítico Médio. A descoberta revela um passado complexo, no qual agressão e solidariedade já conviviam. Olhar para essa marca hoje é reconhecer que comportamentos profundamente humanos possuem raízes muito mais antigas do que imaginávamos.