Cientistas que exploravam desertos inóspitos descobriram algo escondido dentro de musgos que ninguém jamais havia visto antes
Pesquisa encontrou estruturas fúngicas dentro de musgos de desertos e outros ambientes, desafiando uma antiga ideia sobre essas plantas.
Por muito tempo, os musgos pareceram ocupar um lugar solitário no reino vegetal. Pequenos, sem raízes verdadeiras e capazes de sobreviver em ambientes extremos, eles eram vistos como exceções às parcerias entre plantas e fungos. Agora, uma descoberta feita até em desertos revelou estruturas fúngicas escondidas dentro de suas próprias células.

O que os cientistas encontraram dentro dos musgos?
Um estudo publicado na revista científica New Phytologist encontrou DNA de fungos em tecidos de musgos e revelou algo ainda mais surpreendente ao microscópio. Estruturas fúngicas estavam crescendo diretamente dentro das células dessas plantas, uma associação que ainda não havia sido documentada dessa maneira.
A descoberta desafia uma ideia antiga. Mais de 85% das plantas terrestres mantêm algum tipo de parceria com fungos, normalmente trocando açúcares por nutrientes obtidos do solo. Como os musgos não possuem raízes verdadeiras, pesquisadores acreditavam que eles estavam praticamente fora desse tipo de relação.

Como os desertos ajudaram a revelar esse segredo?
A investigação começou com Kian Kelly, estudante de doutorado da Universidade da Califórnia, Riverside. Ele estudava crostas biológicas do solo nos desertos de Mojave e Sonora, ambientes onde musgos convivem com fungos, bactérias, algas e outros organismos mesmo sob calor e extrema falta de água.
Kelly decidiu comparar os fungos associados a musgos coletados em diferentes ambientes. As análises laboratoriais encontraram DNA fúngico tanto em exemplares de regiões desérticas quanto naqueles de climas mais amenos, incluindo fungos micorrízicos conhecidos por estabelecer relações muito próximas com plantas.
Por que os fungos encontrados chamaram tanta atenção?
Um detalhe afastou a possibilidade de que os fungos estivessem simplesmente contaminando os musgos a partir do solo. As comunidades encontradas dentro das plantas eram diferentes das presentes na terra ao redor. Além disso, musgos de ambientes desérticos carregavam grupos diferentes daqueles observados em regiões mais úmidas.
- Musgos de ambientes distintos apresentaram diferentes comunidades de fungos em seus tecidos.
- Os fungos encontrados dentro das plantas não eram iguais aos predominantes no solo ao redor.
- Fungos micorrízicos também apareceram nas análises realizadas pelos pesquisadores.
Kelly afirmou em comunicado da Universidade da Califórnia, Riverside, que a equipe suspeita que determinados fungos possam ser mais úteis para a sobrevivência em ambientes quentes e secos. A hipótese ainda precisa ser investigada, mas sugere que a associação pode ser mais seletiva e importante do que se imaginava.

O que apareceu quando os pesquisadores usaram o microscópio?
Para localizar os fungos, Kelly aplicou nos tecidos um corante azul capaz de destacar suas estruturas. Sob o microscópio, surgiram formações ramificadas crescendo dentro das células. Segundo o pesquisador, naquele momento ficou claro que havia algo especialmente interessante acontecendo nos musgos analisados.
As estruturas lembravam arbúsculos, pequenas ramificações normalmente encontradas em raízes de plantas que mantêm associações com fungos. Como musgos não têm raízes verdadeiras, elas apareceram em partes semelhantes a folhas. Os autores acreditam que isso possa estar ligado à troca de nutrientes, embora novos estudos sejam necessários.
Por que essa descoberta pode mudar o que sabemos sobre os musgos?
Os musgos estão entre as linhagens mais antigas de plantas terrestres e sobreviveram a enormes transformações ambientais ao longo de centenas de milhões de anos. Encontrar fungos vivendo dentro de seus tecidos levanta novas perguntas sobre como essas pequenas plantas resistem a ambientes extremos e como suas relações ecológicas evoluíram.
A pesquisa ainda não explica exatamente o que cada organismo ganha nessa associação, mas abriu uma porta que permaneceu escondida por muito tempo. Agora, os cientistas querem descobrir se os fungos fazem parte de uma antiga estratégia de sobrevivência dos musgos, um segredo microscópico que pode ter atravessado eras inteiras.