Cientistas reconstruíram os rostos de pessoas comuns do Império Romano e encontraram histórias de fome, trabalho e mistério
Quase 1.700 anos depois de suas mortes, 16 habitantes da antiga Aquincum voltaram a encarar o mundo.
Quase 1.700 anos depois de suas mortes, 16 habitantes da antiga Aquincum voltaram a encarar o mundo. A combinação de DNA antigo, tomografias, impressão 3D e escultura forense permitiu reconstruir rostos de homens, mulheres e uma criança que viveram na fronteira romana onde hoje está Budapeste, na Hungria.

Como os rostos de Aquincum foram reconstruídos?
O processo começou com tomografias computadorizadas de alta resolução dos crânios encontrados em cemitérios da antiga cidade. A partir das imagens, os especialistas produziram réplicas exatas em impressoras 3D, evitando o manuseio frequente dos restos originais e permitindo um trabalho detalhado sobre cada estrutura facial.
A especialista Emese Gábor utilizou mais de 60 pontos anatômicos para calcular músculos, tecidos e proporções. Seis reconstruções receberam modelos hiper-realistas de silicone, além de olhos artificiais, cabelos humanos, sobrancelhas, cílios e barbas. Segundo ela, o objetivo é fazer o público enxergar pessoas reais, e não apenas ossos expostos.

O DNA revelou a diversidade da cidade romana
Análises arqueogenéticas indicaram que Aquincum reuniu uma população bastante diversa entre os séculos I e IV. Os indivíduos estudados apresentavam ligações com regiões correspondentes à atual Itália, Escócia e Síria, além de relações com povos sármatas da estepe eurasiática e comunidades celtas anteriores ao domínio romano.
O DNA antigo também forneceu pistas sobre características como pigmentação da pele e as possíveis cores dos olhos e dos cabelos. Os pesquisadores, porém, ressaltam que os resultados são aproximações científicas. Expressões, penteados e determinados detalhes da aparência continuam dependendo de interpretações baseadas no contexto histórico.
Quem eram as pessoas apresentadas na exposição?
A mostra reúne diferentes personagens da sociedade de Aquincum, muitos deles pertencentes às camadas menos favorecidas. Evidências nos esqueletos apontam trabalhos físicos extenuantes, fome e inflamações crônicas. Entre os perfis reconstruídos pelos especialistas estão:
- Um operário da construção civil;
- Um oficial militar;
- Um ferreiro;
- Uma criança que morreu ainda jovem;
- Uma possível enfermeira ou curandeira.
Duas mulheres foram encontradas enterradas de bruços e com as pernas amarradas. A exposição relaciona uma delas a uma acusação de bruxaria e a outra a um possível envenenamento. Essas histórias, no entanto, são interpretações históricas elaboradas pelos curadores, e não conclusões comprovadas pelos sepultamentos.

A mulher com coroa de louros ganhou um novo rosto
Entre todas as reconstruções, Emese Gábor destacou a mulher conhecida como múmia da Estrada de Jablonka. Uma coroa de louros permanecia sobre sua cabeça, enquanto o sepultamento preservava roupas elaboradas, um fuso para tecelagem, sandálias de cortiça em forma de pássaro e um retrato masculino pintado.
Arqueólogos acreditam que a imagem poderia representar o marido ou o pai da mulher, embora sua identidade permaneça desconhecida. Gábor explicou que os pesquisadores reconstruíram sua possível história a partir do contexto arqueológico e dos dados antropológicos, enquanto ela se dedicou a devolver forma e expressão ao rosto perdido.
Os rostos antigos transformam nossa relação com o passado
A exposição Once We Were Like You, no Museu de Aquincum, permite que os visitantes observem as reconstruções em tamanho real e por diferentes ângulos. Para Gábor, essa experiência física cria uma conexão que imagens digitais dificilmente alcançam, pois revela indivíduos que trabalharam, formaram famílias, adoeceram e enfrentaram dificuldades.
Mais do que uma demonstração tecnológica, o projeto recupera a humanidade de pessoas quase ausentes dos registros escritos. Ao encarar esses rostos, o público é convidado a abandonar a distância confortável dos livros e reconhecer algo urgente: por trás de cada descoberta arqueológica existiu alguém tão complexo, vulnerável e humano quanto nós.