Como os morcegos freiam o avanço da lagarta-do-cartucho nas lavouras de milho do Brasil
A lagarta-do-cartucho é apenas a fase jovem da Spodoptera frugiperda.
Quando anoitece sobre as lavouras de milho, morcegos insetívoros começam um trabalho quase invisível de controle de pragas. Entre os insetos encontrados na alimentação desses animais está a mariposa Spodoptera frugiperda, fase adulta da temida lagarta-do-cartucho. Um estudo brasileiro estimou que esse serviço ecológico poderia evitar perdas equivalentes a cerca de US$ 390,6 milhões por safra de milho no país.

Como um morcego consegue combater uma lagarta que vive no milho?
O segredo está no ciclo de vida da praga. A lagarta-do-cartucho é apenas a fase jovem da Spodoptera frugiperda. Depois de completar o desenvolvimento, ela se transforma em mariposa, sai em voo principalmente à noite, acasala e coloca ovos que darão origem a uma nova geração de lagartas.
É justamente nesse momento que os hábitos dos dois animais se encontram. Morcegos insetívoros caçam durante a noite e capturam mariposas em pleno voo. Ao consumir uma fêmea adulta antes da postura de ovos, eles podem interromper parte do ciclo reprodutivo da praga antes que novas lagartas cheguem às plantas. Pesquisadores encontraram DNA de S. frugiperda nas fezes de morcegos estudados no Centro-Oeste brasileiro.
Por que a lagarta-do-cartucho preocupa tanto quem produz milho?
A praga ataca principalmente folhas novas e pode se alojar no cartucho da planta, deixando perfurações e reduzindo a área responsável pela fotossíntese. Em infestações intensas, os danos podem comprometer significativamente a produtividade:
- A mariposa adulta consegue se deslocar por grandes distâncias;
- As fêmeas podem originar numerosas lagartas em uma nova geração;
- As larvas atacam principalmente tecidos jovens do milho;
- A praga também utiliza outras culturas como hospedeiras;
- Populações resistentes podem dificultar determinadas formas de controle;
- O manejo normalmente exige acompanhamento constante da lavoura.
Quanto vale o trabalho realizado pelos morcegos no campo?
Um estudo publicado em 2021 analisou o DNA presente nas fezes de cinco espécies de morcegos insetívoros que viviam em construções de Brasília e cidades próximas. Os pesquisadores identificaram 83 grupos de artrópodes na dieta; entre aqueles reconhecidos até o nível de espécie, muitos eram considerados pragas agrícolas.
A partir de um modelo conservador envolvendo a predação de mariposas da lagarta-do-cartucho, os autores estimaram economia potencial de aproximadamente US$ 94 por hectare de milho, chegando a US$ 390,6 milhões por safra brasileira. O próprio trabalho ressalta que se trata de uma estimativa baseada em premissas, e não de um valor observado diretamente em todas as lavouras do país.

O que ajuda a manter esses aliados perto das lavouras?
Morcegos precisam encontrar alimento, locais seguros para abrigo e uma paisagem que permita sua sobrevivência. Preservar a biodiversidade ao redor das áreas produtivas ajuda a manter diferentes espécies capazes de realizar serviços ecológicos, incluindo a predação de insetos:
- Conservar fragmentos de vegetação nativa próximos às áreas agrícolas;
- Preservar árvores e outros locais naturais de abrigo;
- Evitar destruir colônias de morcegos por medo ou desconhecimento;
- Reduzir alterações desnecessárias em áreas usadas como refúgio;
- Integrar a conservação de inimigos naturais ao manejo de pragas;
- Evitar considerar todo morcego como uma ameaça à produção.
Por que a fama dos morcegos está tão distante do trabalho que eles realizam?
No imaginário popular, morcegos ainda aparecem associados principalmente a sangue e doenças, embora as espécies tenham dietas muito diferentes. No Brasil existem morcegos que comem frutas, néctar, pequenos animais e insetos. Os insetívoros podem consumir diariamente uma quantidade de artrópodes próxima de grande parte da própria massa corporal, tornando-se predadores importantes justamente durante as horas em que inúmeras mariposas agrícolas estão ativas.
Eles não eliminam sozinhos a lagarta-do-cartucho nem substituem o manejo integrado de pragas. O que fazem é acrescentar uma barreira natural ao avanço das populações: cada mariposa capturada antes de reproduzir representa ovos que potencialmente deixam de chegar à lavoura. Para um animal frequentemente tratado como indesejado, é um papel surpreendentemente valioso na proteção do milho brasileiro.