Crianças incas caminharam até 2.800 quilômetros antes do ritual de sacrifício, e seus cabelos revelaram cada etapa da jornada

Três crianças incas encontradas em montanhas do Chile guardavam uma história muito mais longa do que seus momentos finais.

Três crianças incas encontradas em montanhas do Chile guardavam uma história muito mais longa do que seus momentos finais. Um novo estudo revelou que elas percorreram centenas ou milhares de quilômetros antes da cerimônia conhecida como Capacocha, enquanto exames modernos também mudaram o que se acreditava sobre as causas de suas mortes.

A pesquisa, publicada na revista Science Advances, reanalisou três múmias de dois sítios arqueológicos.
A pesquisa, publicada na revista Science Advances, reanalisou três múmias de dois sítios arqueológicos. - Imagem gerada por IA

O que o novo estudo descobriu sobre as crianças incas?

A pesquisa, publicada na revista Science Advances, reanalisou três múmias de dois sítios arqueológicos. Uma delas é o Menino de El Plomo, que tinha aproximadamente 8 ou 9 anos e foi encontrado a 5.400 metros de altitude. As outras eram duas meninas, com cerca de 9 e 18 anos, descobertas no Cerro Esmeralda.

Segundo Verónica Silva-Pinto, primeira autora do estudo, a Capacocha não se resumia ao ato final nas montanhas. Ela descreveu a cerimônia como um processo prolongado, iniciado meses antes, que envolvia deslocamentos, mudanças na alimentação, participação de diferentes comunidades e a transformação das rotas em paisagens consideradas sagradas.

Rito sagrado envolvia extensa preparação e deslocamento por paisagens sagradas.
Rito sagrado envolvia extensa preparação e deslocamento por paisagens sagradas. - Imagem gerada por IA.

Como as crianças morreram?

Durante décadas, acreditou-se que o Menino de El Plomo havia morrido por exposição ao frio. Tomografias computadorizadas e análises microscópicas, porém, indicaram um trauma na cabeça que não havia sido percebido nas primeiras investigações. Os pesquisadores concluíram que essa lesão foi a causa mais provável de sua morte.

Já as duas meninas de Cerro Esmeralda eram consideradas vítimas de estrangulamento por causa de marcas no pescoço. O novo estudo mostrou que essas marcas provavelmente foram produzidas pelas roupas após a morte. Como os ossos hióides não estavam fraturados ou deslocados, a causa da morte delas passou a ser classificada como indeterminada.

Quais técnicas permitiram rever as antigas conclusões?

As múmias foram encontradas em 1954 e 1976, quando os recursos de análise eram muito mais limitados. A nova equipe utilizou métodos minimamente invasivos para examinar tecidos, ossos e cabelos. Silva-Pinto destacou que objetos já estudados podem continuar oferecendo informações essenciais quando revisitados com novas tecnologias e uma perspectiva ética.

Entre os procedimentos empregados na pesquisa estavam:

  • Tomografias computadorizadas para observar lesões internas
  • Microscopia para identificar alterações nos tecidos e ossos
  • Análises isotópicas em pequenas amostras de cabelo
  • Datação por radiocarbono de fragmentos ósseos
  • Reavaliação forense das marcas preservadas nas múmias

    Técnicas avançadas e métodos éticos permitiram reavaliar antigas conclusões arqueológicas.
    Técnicas avançadas e métodos éticos permitiram reavaliar antigas conclusões arqueológicas. - Jason Quinn, CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons

As crianças fizeram longas peregrinações?

Os isótopos preservados nos cabelos indicaram mudanças na água e nos alimentos consumidos durante os últimos meses de vida. A equipe estimou que o Menino de El Plomo percorreu entre 2.600 e 2.800 quilômetros em nove meses. As meninas de Cerro Esmeralda teriam viajado entre 900 e 1.200 quilômetros em três meses.

Nem todos os especialistas concordam com essa reconstrução. A bioarqueóloga Dagmara Socha alertou que mudanças isotópicas também podem refletir variações sazonais da dieta. O arqueólogo Pablo Mignone questionou a ideia de que todas as jornadas começavam em Cuzco, lembrando que evidências anteriores apontam partidas de diferentes regiões do Império Inca.

A descoberta transforma a compreensão da Capacocha

As datações indicaram que as meninas foram sacrificadas por volta de 1450 e o Menino de El Plomo, aproximadamente em 1480. Para Silva-Pinto, a cronologia mostra que não foram episódios isolados. As cerimônias ajudavam a conectar comunidades, montanhas, divindades e o Estado, dentro de uma visão em que a morte representava transformação.

O estudo não encerra o debate, mas mostra como novas tecnologias podem corrigir interpretações mantidas durante décadas. Rever essas múmias com respeito permite reconstruir não apenas suas mortes, mas também suas viagens e seu papel na sociedade inca. Cada nova análise pode mudar profundamente o que pensamos saber sobre essas crianças e seu passado.