Crianças que viram líderes na escola colaboram em casa, cuidam das coisas e cumprem combinados, diz a psicologia

Professora espanhola explica por que tarefas e combinados treinam liderança e como dosar em cada idade

Crianças que viram líderes na escola costumam trazer de casa três hábitos simples: colaborar nas tarefas da família, cuidar das próprias coisas e cumprir os combinados. A observação é de Verónica Fernández, professora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Francisco de Vitoria, na região de Madri, em entrevista à revista espanhola ¡Hola!.

Ela também dirige o Centro de Educação em Virtudes e Valores da universidade e faz uma ressalva logo de início. Liderança infantil não é mandar mais, falar mais alto nem ser o mais popular da turma. É influenciar os outros de forma positiva, tomar iniciativa e assumir responsabilidades, e isso se treina em situações bem comuns.

Ajudar a pôr a mesa é tarefa adequada a partir dos 5 anos, segundo a AAP – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Ajudar a pôr a mesa é tarefa adequada a partir dos 5 anos, segundo a AAP – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que a professora chama de liderança na infância

Os exemplos que Fernández dá são de recreio: a criança que chama para a brincadeira o colega que estava sozinho, que defende alguém de uma zoação ou que ajuda a resolver uma briga.

Para ela, tudo começa por aprender a governar a si mesmo: reconhecer e regular as emoções, pensar antes de agir e arcar com as consequências das escolhas. Mais útil do que perguntar se o filho tem jeito de líder, diz ela, é observar que tipo de pessoa ele está se tornando. E vale para os mais quietos, que muitas vezes lideram pelo exemplo e pela escuta.

Os três hábitos começam dentro de casa

Perguntada sobre o que essas crianças costumam praticar desde pequenas, Fernández foi direta: “Um dos hábitos mais importantes é assumir responsabilidades desde pequenos: colaborar nas tarefas domésticas, cuidar dos seus pertences, cumprir compromissos ou se encarregar daquilo que lhes cabe”.

A lógica vem de Aristóteles, que ela cita na entrevista: as virtudes se adquirem praticando. Uma criança aprende a ser responsável assumindo responsabilidades, assim como aprende a ter coragem enfrentando dificuldades.

Na lista entram também saber esperar, tolerar a frustração e insistir quando algo fica difícil. Resolver na hora todos os problemas dos filhos, mesmo com a melhor das intenções, tira deles a oportunidade de ganhar autonomia.

Elogiar o tempo todo ajuda ou atrapalha?

Segundo a professora, é comum confundir educar para a liderança com elogiar sem parar ou empurrar o filho para se destacar em tudo. A criança precisa de mais do que ouvir que pode conseguir qualquer coisa. Precisa aprender que as decisões têm consequências, que os outros também importam e que nem sempre dá para fazer o que se quer.

As famílias que favorecem esse desenvolvimento, diz ela, combinam afeto e exigência, confiança e acompanhamento, liberdade e responsabilidade. E há o exemplo: a criança aprende muito mais vendo os pais pedirem desculpas, cumprirem a palavra e ajudarem alguém do que ouvindo sermão sobre liderança.

Como estimular em cada idade sem pesar a mão

A Academia Americana de Pediatria (AAP) tem uma referência prática para dosar as tarefas. Dos 5 aos 7 anos, a criança já pode arrumar a cama, pôr e tirar a mesa, separar roupa suja, alimentar o pet, regar as plantas e guardar os brinquedos. Dos 8 aos 10, entram passar aspirador, ajudar no jantar, preparar o próprio lanche e guardar a roupa limpa. Dos 11 aos 12, segundo a AAP, dá para limpar a cozinha, trocar a roupa de cama e fazer uma refeição simples com supervisão.

Fernández recomenda oportunidades reais de protagonismo, ajustadas à idade: pequenas responsabilidades e trabalhos em grupo na infância, mais participação nas decisões e em projetos da escola na adolescência.

Outra ferramenta é a conversa depois de um episódio do dia. Por que você tomou essa decisão? Como acha que seu colega se sentiu? Para ela, perguntas assim ensinam a criança a reconhecer o que é certo em cada situação. E combina com os cuidados para falar sobre sentimentos com as crianças sem transformar tudo em lição.

No Brasil, metade das crianças já ajuda em casa

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, noticiada pela Agência Brasil, 54,1% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos faziam algum afazer doméstico em 2024, cerca de 20,5 milhões de pessoas. O mesmo levantamento do IBGE mostra que a conta pesa mais para elas: 58,2% entre as meninas e 50,2% entre os meninos.

Cuidar da casa é tarefa de todo mundo, meninos incluídos. O segredo está na dose: tarefa pequena e adequada à idade educa; carga que rouba tempo de estudo, brincadeira e descanso já é outra história.

Liderança não é ficar acima dos outros

O primeiro conselho de Fernández para pais e educadores é não ficar obcecado em formar líderes. O foco é formar uma boa pessoa; a liderança, quando vem, é consequência.

Ela resume a ideia assim: “Educar para a liderança não consiste em ensinar nossos filhos a estar acima dos outros, mas em ajudá-los a tirar o melhor de si mesmos para contribuir para tirar o melhor dos outros”. É uma frase que merece ir para a porta da geladeira, ao lado da escala de quem tira a mesa. Afinal, muitos hábitos aprendidos na primeira infância seguem com a gente até a velhice.