Dois motores de caça, 100 mil cavalos e um atraso de 49 segundos: a corrida mais extrema já realizada em terra

Quarenta e nove segundos impediram Andy Green de entrar para a história em sua primeira tentativa.

Quarenta e nove segundos impediram Andy Green de entrar para a história em sua primeira tentativa. Em outubro de 1997, o britânico já havia conduzido um carro acima da velocidade do som, mas uma regra técnica anulou a façanha. Dois dias depois, ele voltou ao deserto de Nevada e transformou o ThrustSSC no primeiro veículo terrestre oficialmente supersônico.

O primeiro homem a quebrar oficialmente a barreira do som em terra foi o britânico Andy Green, piloto da Força Aérea Real.
O primeiro homem a quebrar oficialmente a barreira do som em terra foi o britânico Andy Green, piloto da Força Aérea Real. - Imagem gerada por IA

Quem rompeu a barreira do som em terra?

O primeiro homem a quebrar oficialmente a barreira do som em terra foi o britânico Andy Green, piloto da Força Aérea Real. Em 15 de outubro de 1997, ele atingiu uma velocidade média de 1.227,985 km/h no deserto de Black Rock, em Nevada, nos Estados Unidos, superando a velocidade do som nas condições registradas naquele dia.

A conquista não dependia apenas de alcançar uma velocidade máxima impressionante. Para ser reconhecido, o recorde precisava seguir as regras da Federação Internacional do Automóvel. Green teve de percorrer o trajeto em sentidos opostos, permitindo que fatores como vento e inclinação fossem compensados no cálculo da média oficial.

Pioneirismo na conquista da velocidade supersônica sobre rodas em ambiente controlado.
Pioneirismo na conquista da velocidade supersônica sobre rodas em ambiente controlado. - Skyscan Photolibrary/Imageselect

Por que a primeira tentativa não foi aceita?

Andy Green já havia ultrapassado a velocidade do som em 13 de outubro, dois dias antes do recorde definitivo. O problema foi o intervalo entre as duas passagens obrigatórias. As regras determinavam que ambas fossem realizadas dentro de uma hora, mas a equipe concluiu o procedimento em uma hora e 49 segundos.

O atraso de apenas 49 segundos tornou a tentativa inválida, mesmo com o desempenho supersônico. O episódio mostra como recordes desse porte dependem tanto da engenharia e da coragem quanto de uma operação perfeitamente coordenada. Reabastecimento, inspeções, reposicionamento e preparação da pista precisavam acontecer com precisão quase militar.

O ThrustSSC era realmente um carro?

Com 16,5 metros de comprimento e peso próximo de dez toneladas, o ThrustSSC tinha pouco em comum com um automóvel convencional. Sua estrutura lembrava uma aeronave sem asas, construída para permanecer estável sobre rodas em uma velocidade extrema. A direção das rodas traseiras ajudava Green a corrigir suavemente a trajetória.

O veículo reunia características que explicam sua aparência e seu desempenho extraordinários:

  • Duas turbinas Rolls-Royce Spey usadas em caças F-4 Phantom II
  • Potência combinada estimada em mais de 100 mil cavalos
  • Sete toneladas de combustível consumidas durante a operação
  • Rodas metálicas especiais sem pneus de borracha
  • Cabine posicionada entre os dois enormes motores

Em velocidades supersônicas, pneus comuns poderiam se deformar ou se desfazer. Por isso, o ThrustSSC utilizava rodas de liga metálica projetadas para suportar forças gigantescas. O carro também precisava atravessar as ondas de choque geradas ao romper a barreira do som sem perder contato com o solo ou desviar da rota marcada.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Veículos & Histórias® mostrando o grandioso ThrustSSC atingindo e ultrapassando a barreira do som.

Como foi dirigir acima da velocidade do som?

Andy Green não controlava o ThrustSSC como alguém dirige em uma rodovia. A aceleração exigia movimentos calculados, atenção aos instrumentos e correções mínimas. Perto da velocidade do som, o fluxo de ar ao redor do veículo mudava drasticamente, criando ondas de pressão que podiam afetar sua estabilidade e levantar poeira pelo deserto.

Observadores ouviram estrondos semelhantes a explosões quando o carro atravessou a barreira do som. Esses estampidos sônicos não eram provocados pelo motor, mas pela compressão do ar causada pelo deslocamento supersônico. Green precisava manter o veículo alinhado enquanto percorria quilômetros em poucos segundos, com espaço limitado para reagir a qualquer problema.

O recorde ligou dois momentos históricos

A marca foi estabelecida exatamente 50 anos e um dia após Chuck Yeager romper oficialmente a barreira do som no ar. Em 14 de outubro de 1947, o piloto norte-americano realizou a façanha a bordo do avião experimental Bell X-1. Meio século depois, o ThrustSSC demonstrou que esse limite também poderia ser vencido com rodas tocando o solo.

O recorde de Andy Green permanece como um símbolo de ousadia, ciência e planejamento extremo. Mais do que colocar motores de caça em uma máquina gigantesca, a equipe precisou controlar forças capazes de destruir um veículo comum. A conquista lembra que grandes avanços podem depender de décadas de trabalho e, às vezes, de apenas 49 segundos.