Dois templos esculpidos na rocha há 3.200 anos foram cortados em mais de mil blocos, erguidos 65 metros acima e remontados peça por peça para escapar das águas de uma represa no Egito
Milhares de anos depois, a construção da Represa Alta de Assuã mudou o destino do sítio.
Os templos de Abu Simbel, construídos no reinado de Ramsés II há mais de 3.200 anos, quase desapareceram sob as águas no século XX. Para salvá-los da formação do Lago Nasser, engenheiros e arqueólogos cortaram fachadas e câmaras em mais de mil blocos, transportaram as peças e reconstruíram os monumentos em um terreno cerca de 65 metros mais alto.

Por que os templos de Abu Simbel precisaram ser retirados do lugar?
Os dois templos foram escavados diretamente em uma encosta rochosa da Núbia durante o reinado de Ramsés II, por volta do século XIII a.C. O complexo inclui o Grande Templo dedicado ao faraó e a divindades egípcias e um templo menor associado à rainha Nefertari, ambos marcados por enormes esculturas talhadas na própria rocha.
Milhares de anos depois, a construção da Represa Alta de Assuã mudou o destino do sítio. O reservatório que formaria o Lago Nasser elevaria o nível da água sobre a localização original de Abu Simbel, deixando os monumentos diante de uma escolha radical: serem transferidos ou permanecerem submersos.
Como foi possível cortar dois templos gigantes em mais de mil peças?
Entre 1964 e 1968, equipes internacionais executaram uma das operações de engenharia arqueológica mais ambiciosas já realizadas. A rocha foi cuidadosamente serrada em grandes blocos, que receberam identificação antes do transporte para permitir que cada fragmento retornasse à posição correta:
- Fachadas, paredes e câmaras internas foram divididas em mais de mil blocos;
- Algumas peças pesavam dezenas de toneladas;
- Cada fragmento precisava ser numerado antes da remoção;
- Esculturas e relevos exigiam cortes planejados para evitar danos visíveis;
- Os blocos eram armazenados até a preparação definitiva do novo terreno;
- A montagem precisava reproduzir as proporções e a orientação dos templos originais.
Como os monumentos foram reconstruídos 65 metros acima?
O novo ponto ficava aproximadamente 65 metros acima e cerca de 200 metros para trás da localização anterior. Ali, os blocos foram remontados peça por peça, reproduzindo corredores, salas, fachadas e esculturas do complexo de Ramsés II.
Como os templos haviam sido originalmente escavados em uma montanha, simplesmente deixá-los expostos não recriaria sua estrutura. Foram construídas grandes cúpulas de concreto sobre as câmaras reconstruídas e, depois, colinas artificiais cobriram o conjunto, criando novamente a aparência de monumentos talhados dentro da rocha.

O que precisou ser preservado além das pedras e esculturas?
Um dos maiores desafios foi manter o alinhamento solar do Grande Templo. Em dois períodos do ano, a luz do Sol atravessa a entrada e os longos corredores até alcançar o santuário mais interno, fenômeno que dependia diretamente da orientação do edifício:
- A posição das fachadas precisava acompanhar a orientação original;
- O eixo interno do Grande Templo foi cuidadosamente recalculado;
- As salas foram remontadas respeitando distâncias e ângulos;
- As colinas artificiais tiveram de reproduzir o ambiente rochoso;
- A incidência solar sobre o santuário continuou ocorrendo após a mudança.
O resgate de Abu Simbel se tornou um marco da preservação histórica
A transferência mostrou que até monumentos integrados à própria paisagem poderiam ser preservados diante de uma transformação territorial de enorme escala. A campanha internacional mobilizou especialistas de diferentes países e tornou Abu Simbel um símbolo da cooperação para proteger construções antigas ameaçadas por grandes obras modernas.
Hoje, quem observa os colossos de Ramsés II encontra uma paisagem que parece milenar, apesar de toda a montanha ao redor dos templos ter sido reconstruída no século XX. O episódio está entre as histórias surpreendentes preservadas no Egito: mais de mil peças foram separadas, elevadas e reunidas novamente para que um complexo criado há cerca de 3.200 anos não desaparecesse sob as águas.