Ele ganhou saltos poderosos, mas perdeu a marcha à ré: a curiosa troca evolutiva presente no corpo do canguru
Um canguru pode cruzar grandes distâncias aos saltos, alcançar velocidade impressionante e mudar de direção com agilidade.
Um canguru pode cruzar grandes distâncias aos saltos, alcançar velocidade impressionante e mudar de direção com agilidade. Porém, quando precisa recuar, sua anatomia cria um problema curioso: ele praticamente não consegue andar ou saltar para trás, ao menos não da mesma maneira coordenada com que avança.

Por que o canguru não consegue andar para trás?
A dificuldade começa nas pernas traseiras, que são longas, musculosas e adaptadas para impulsionar o corpo para a frente. Os pés também são grandes e alongados, funcionando como poderosas alavancas durante os saltos, mas oferecendo pouca liberdade para uma sequência eficiente de passos em marcha à ré.
A cauda grossa aumenta essa limitação. Ela ajuda a equilibrar o corpo durante os saltos e participa diretamente da locomoção lenta. Para recuar, o animal precisaria reorganizar ao mesmo tempo a posição da cauda, dos pés e do centro de gravidade, uma combinação pouco compatível com sua estrutura corporal.
A cauda funciona como uma quinta perna
Quando se desloca devagar, o canguru não pula como costuma aparecer em vídeos. Ele apoia as patas dianteiras e a cauda no chão, ergue as pernas traseiras e as projeta para a frente. Esse movimento é conhecido como locomoção pentapedal, porque envolve cinco pontos de apoio, contando a cauda.
O ciclo funciona de maneira eficiente em uma direção específica. A cauda sustenta e empurra o corpo enquanto as grandes patas traseiras avançam juntas. Tentar inverter essa sequência exigiria movimentos para os quais suas articulações e proporções não foram especializadas, tornando o recuo desajeitado e muito limitado.

O animal fica preso quando encontra um obstáculo?
Não conseguir caminhar para trás normalmente não deixa o canguru sem saída. Em vez de realizar uma longa marcha à ré, ele pode virar o corpo, mudar de direção, deslocar-se lateralmente ou dar pequenos ajustes de posição. Em espaços abertos, essa solução é rápida e suficiente para continuar o trajeto.
As principais alternativas usadas pelo animal incluem:
- Virar o corpo antes de seguir em outra direção;
- Fazer pequenos movimentos laterais;
- Reposicionar as patas dianteiras e a cauda;
- Saltar para longe do obstáculo;
- Girar sobre o próprio eixo quando há espaço.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Animais do Mundo mostrando o comportamento dos cangurus, animal símbolo da Austrália.
Todos os cangurus têm a mesma limitação?
A curiosidade se aplica principalmente aos grandes cangurus terrestres, conhecidos pelos saltos e pela cauda musculosa. O grupo dos macropodídeos, porém, inclui espécies com estilos de vida diferentes. Cangurus-arborícolas, por exemplo, possuem articulações mais flexíveis para se movimentar entre troncos e galhos.
Por isso, a frase “cangurus não conseguem andar para trás” funciona como uma simplificação. O mais correto é dizer que os grandes cangurus não conseguem realizar uma locomoção traseira normal e eficiente. Pequenos recuos ou ajustes podem acontecer, mas estão longe de formar uma caminhada coordenada.
A limitação virou um símbolo da Austrália
O canguru aparece ao lado do emu no brasão australiano. Uma explicação popular para a escolha afirma que os dois animais simbolizam uma nação que segue em frente, pois teriam dificuldade para se mover para trás. A curiosidade tornou a característica anatômica parte da identidade cultural do país.
Na próxima vez que observar um canguru, repare que sua aparente limitação é resultado de uma especialização extraordinária. Ele perdeu eficiência para recuar, mas ganhou pernas, pés e cauda capazes de transformar energia em saltos poderosos. A evolução não cria animais perfeitos, e sim corpos preparados para enfrentar desafios específicos.