Elefantes parecem chamar uns aos outros por nomes próprios e respondem quando escutam o seu

Estudo com elefantes africanos indica que alguns chamados carregam rótulos individuais semelhantes a nomes e são reconhecidos pelos destinatários.

Num grupo de elefantes, um chamado pode fazer vários animais prestar atenção. Outro parece interessar especialmente a um indivíduo. Pesquisadores reuniram décadas de gravações no Quênia e usaram aprendizado de máquina e testes de reprodução sonora para investigar uma hipótese ousada: alguns chamados carregam rótulos individuais parecidos com nomes.

Michael Pardo e colegas trabalharam com vocalizações de elefantes-africanos-de-savana registradas em populações do Quênia
Michael Pardo e colegas trabalharam com vocalizações de elefantes-africanos-de-savana registradas em populações do QuêniaImagem gerada por inteligência artificial

Como os cientistas perceberam que certos chamados tinham destinatário?

Michael Pardo e colegas trabalharam com vocalizações de elefantes-africanos-de-savana registradas em populações do Quênia, incluindo animais acompanhados por projetos de longo prazo. Em muitas situações, o contexto comportamental permitia identificar para quem um chamado parecia ser dirigido, por exemplo quando uma fêmea buscava contato com um filhote ou outro membro do grupo.

A equipe então comparou a estrutura acústica dessas vocalizações. Se os elefantes apenas reproduzissem o som típico do destinatário, como acontece em alguns sistemas de comunicação animal, o chamado deveria se parecer fortemente com a própria voz daquele indivíduo. Os dados indicaram outra coisa.

Elefantes usam chamados individuais que funcionam de forma parecida com nomes.
Elefantes usam chamados individuais que funcionam de forma parecida com nomes. - Créditos: Imagem criada por IA.

O que a inteligência artificial encontrou nas gravações?

Modelos de aprendizado de máquina conseguiram prever o destinatário acima do esperado ao acaso usando características acústicas dos chamados. O resultado persistiu mesmo quando os pesquisadores controlaram a semelhança entre o chamado e as vocalizações normalmente produzidas por quem o recebia.

Isso é importante porque golfinhos e algumas aves podem se dirigir a indivíduos imitando sinais característicos deles. Nos elefantes, a evidência aponta para rótulos vocais individualizados que provavelmente não dependem dessa imitação, algo mais próximo do princípio abstrato usado em nomes humanos.

Os elefantes respondem quando ouvem um chamado dirigido a eles?

Para testar se o padrão tinha significado para os próprios animais, os pesquisadores reproduziram gravações no campo. Os elefantes responderam mais fortemente a chamados que originalmente haviam sido dirigidos a eles do que a vocalizações da mesma pessoa emissora destinadas a outro indivíduo.

Os resultados sustentam a hipótese, mas não significam que os cientistas tenham “traduzido” nomes. O estudo permite afirmar algumas coisas e impede exagerar outras:

  • Gravações de elefantes selvagens foram associadas ao indivíduo que aparentemente recebia cada chamado.
  • Aprendizado de máquina encontrou características acústicas capazes de prever o destinatário acima do acaso.
  • Os padrões não parecem ser simples imitação da voz do animal chamado.
  • Nos testes de reprodução, elefantes responderam mais a chamados originalmente dirigidos a eles.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube UOL que fala sobre o estudo que encontrou chamados individuais semelhantes a nomes entre elefantes africanos:

Cada elefante possui uma palavra fixa como João ou Maria?

Isso ainda não foi demonstrado. O estudo encontrou componentes acústicos associados ao destinatário, mas não isolou uma única sílaba ou som invariável que funcione como etiqueta fixa em todas as situações. Os elefantes produzem chamados complexos que podem carregar várias informações ao mesmo tempo.

Também é possível que diferentes emissores usem variantes do rótulo de um mesmo indivíduo. Por isso, os autores usam a expressão “name-like calls”, chamados semelhantes a nomes. É uma comparação funcional, não a afirmação de que a linguagem dos elefantes tenha a mesma estrutura de nomes humanos.

Por que essa descoberta é tão importante para estudar linguagem?

Nomes permitem falar sobre alguém sem precisar imitar a voz, a aparência ou um comportamento dessa pessoa. Encontrar um princípio parecido em outra espécie sugere que sociedades com relações duradouras e muitos indivíduos podem favorecer sistemas de comunicação capazes de identificar parceiros de forma abstrata.

Os elefantes ainda guardam enorme parte desse vocabulário fora do alcance humano. O estudo não revelou como eles “batizaram” cada integrante, mas mostrou que a identidade do destinatário está escrita no som e que o animal percebe quando o chamado é para ele.