Eles abandonaram mais de 4.000 ovelhas em uma ilha e, 60 anos depois, o resgate delas mudou a ecologia

A criação comercial começou em 1895, quando a Ilha Campbell foi destinada à pecuária.

Quando uma fazenda de ovinos fracassou na remota Ilha Campbell, na Nova Zelândia, cerca de 4.000 ovelhas foram deixadas para trás. O rebanho tornou-se selvagem e continuou modificando a vegetação subantártica até que um longo programa de retirada, concluído aproximadamente 60 anos depois, permitiu uma recuperação ecológica impressionante.

Sem cercamento ou controle, os animais consumiram seletivamente gramíneas, ervas e outras espécies mais palatáveis.
Sem cercamento ou controle, os animais consumiram seletivamente gramíneas, ervas e outras espécies mais palatáveis. - Imagem gerada por IA

Por que milhares de ovelhas foram abandonadas na ilha?

A criação comercial começou em 1895, quando a Ilha Campbell foi destinada à pecuária. O clima frio, úmido e extremamente ventoso, somado à distância dos mercados e à queda nos preços da lã e da carne, tornou a atividade pouco rentável. A fazenda foi abandonada em 1931, deixando aproximadamente 4.000 animais vivendo sem manejo.

  • A ilha fica em uma região subantártica isolada;
  • O transporte de pessoas, suprimentos e lã era difícil;
  • As condições climáticas prejudicavam o trabalho rural;
  • O preço dos produtos de origem ovina entrou em queda;
  • O rebanho permaneceu solto depois do encerramento da fazenda;
  • As ovelhas passaram a sobreviver e se reproduzir de forma selvagem.

Como as ovelhas transformaram a ecologia da Ilha Campbell?

Sem cercamento ou controle, os animais consumiram seletivamente gramíneas, ervas e outras espécies mais palatáveis. Entre as plantas afetadas estavam as chamadas megaherbs, plantas subantárticas de folhas grandes e flores vistosas que formavam parte importante da paisagem e do habitat de animais nativos.

Décadas de pastoreio reduziram a cobertura vegetal de diferentes áreas e favoreceram plantas menos procuradas pelo rebanho. O pisoteio também alterou o solo e espaços usados pela fauna. A história das ovelhas abandonadas na Ilha Campbell mostra como uma espécie doméstica pode se transformar em ameaça quando é introduzida em um ecossistema isolado.

A retirada foi realizada em três grandes etapas

O trabalho começou em 1970 e utilizou cercas resistentes para dividir a ilha. A separação permitiu retirar as ovelhas de uma região e acompanhar o que aconteceria com a vegetação, enquanto parte do rebanho permanecia em outros setores. A recuperação observada na área sem pastoreio ajudou a demonstrar que a erradicação completa era necessária.

  • Em 1970, as ovelhas foram eliminadas da parte norte;
  • Uma nova cerca foi construída em 1984;
  • Cerca de 3.400 animais foram retirados naquele ano;
  • Equipes percorreram vales e encostas à procura de rebanhos ocultos;
  • As últimas ovelhas selvagens foram removidas em 1990 e 1991;
  • Ao todo, aproximadamente 7.000 animais foram abatidos durante o programa.

    Sem cercamento ou controle, os animais consumiram seletivamente gramíneas, ervas e outras espécies mais palatáveis.
    Sem cercamento ou controle, os animais consumiram seletivamente gramíneas, ervas e outras espécies mais palatáveis. - Imagem gerada por IA

As ovelhas foram realmente resgatadas?

A expressão “resgate” pode causar confusão. A maioria dos animais não foi transferida para outro local, mas eliminada como parte de um programa de conservação. Entretanto, dez ovelhas foram capturadas vivas em uma expedição realizada em 1975 e 1976 para preservar as características genéticas desenvolvidas pelo rebanho isolado.

A retirada das ovelhas selvagens terminou cerca de seis décadas depois do abandono da fazenda. Sem a pressão constante do pastoreio, gramíneas, arbustos e megaherbs voltaram a ocupar áreas anteriormente degradadas, modificando novamente a estrutura do habitat.

Como a ilha conseguiu recuperar sua biodiversidade?

Eliminar as ovelhas resolveu apenas parte do problema. Ratos introduzidos por embarcações continuavam atacando ovos, filhotes e pequenos animais. Em 2001, uma operação aérea espalhou iscas pela ilha, que foi posteriormente declarada livre desses roedores. A ausência de mamíferos invasores abriu espaço para a recuperação da vegetação e para o retorno de espécies nativas.

Hoje, a Ilha Campbell é considerada um exemplo de restauração ecológica. Suas megaherbs e formações de tussock voltaram a crescer, enquanto aves como a marreca e a narceja de Campbell se beneficiaram da retirada dos predadores. O caso demonstra que ecossistemas profundamente alterados podem se recuperar, mas somente quando as causas da degradação são eliminadas e a natureza recebe tempo para reconstruir suas relações.