Em 1726, uma mulher convenceu médicos importantes de que estava dando à luz coelhos e o caso chegou à corte britânica
Em 1726, Mary Toft enganou parte da medicina britânica ao alegar que dava à luz coelhos, fraude que terminou em confissão pública.
Em 1726, uma notícia atravessou a Inglaterra e chegou à corte: uma mulher de Godalming estaria dando à luz coelhos. A história parece impossível hoje, e já provocava desconfiança naquela época. Ainda assim, Mary Toft conseguiu envolver médicos influentes, desencadeando uma investigação que terminaria em confissão, panfletos e caricaturas de uma credulidade constrangedora.

Como começou a história dos coelhos?
Mary Toft vivia em Godalming, no condado de Surrey, quando os relatos de supostos partos incomuns começaram a circular. O cirurgião local John Howard acompanhou o caso e ajudou a dar visibilidade ao que era apresentado como um fenômeno extraordinário. A notícia logo ultrapassou a região.
Médicos ligados à corte foram enviados para examinar a mulher, e a situação passou a atrair homens interessados em confirmar ou desmentir o episódio. Nathaniel St André esteve entre os que defenderam a autenticidade. A presença de profissionais conhecidos deu ao relato uma aparência de autoridade.

Por que médicos acreditaram numa história tão improvável?
Naquele período circulava a teoria da “imaginação materna”, segundo a qual impressões e emoções vividas durante a gestação poderiam modificar fisicamente o feto. Essa ideia, hoje rejeitada, oferecia uma explicação aparentemente disponível para acontecimentos considerados estranhos. O relato de Toft encontrou espaço nesse ambiente de conhecimentos e crenças.
Mas não houve uma aceitação unânime da medicina britânica. Alguns médicos suspeitaram de fraude e discordaram dos colegas. A história fica mais interessante quando essa divisão aparece: pessoas com formação e prestígio podiam interpretar os mesmos acontecimentos de maneiras diferentes, especialmente diante de uma promessa de descoberta extraordinária.
Quando apareceram as primeiras suspeitas?
Em Londres, Toft passou a ser observada mais de perto, e as contradições se acumularam. A Universidade de Glasgow, que preserva documentos relacionados ao caso, descreve a tentativa de um funcionário de levar um coelho escondido ao local onde ela estava. O episódio reforçou as suspeitas dos investigadores.
O médico James Douglas já considerava a história uma fraude. Com outros profissionais, procurou esclarecer o que estava acontecendo, enquanto os supostos novos partos deixavam de produzir o resultado anunciado. A atenção que inicialmente ajudara Toft a convencer pessoas começou a dificultar a manutenção da encenação.
Os médicos que defenderam e os que contestaram o relato ajudam a entender o tamanho do escândalo. Acompanhe a história de Mary Toft no vídeo do canal do YouTube Extra History:
Como a fraude acabou sendo confessada?
A pressão aumentou, e Toft confessou em 7 de dezembro de 1726, após a ameaça de uma intervenção cirúrgica dolorosa. Esse detalhe mostra que a investigação também envolveu coerção. O desfecho não deve ser narrado como se tivesse ocorrido apenas numa conversa tranquila entre médicos e paciente.
A confissão destruiu a alegação de que uma mulher poderia gerar coelhos. Ela também expôs como prestígio e vontade de anunciar uma descoberta haviam contribuído para sustentar uma história sem comprovação adequada. Alguns pontos ajudam a separar o caso real de suas versões exageradas:
- Mary Toft alegou partos de coelhos, mas o episódio foi uma fraude.
- Houve médicos que acreditaram e outros que contestaram desde cedo.
- A confissão ocorreu após pressão e ameaça de cirurgia.
Por que a história virou uma humilhação pública?
Panfletos, canções e caricaturas exploraram o escândalo, e William Hogarth esteve entre os artistas que satirizaram seus personagens. A coleção discutida pelo Royal College of Surgeons mostra a quantidade de material produzido. O caso ganhou uma segunda vida como comentário sobre vaidade, reputação e credulidade.
A Inglaterra que depois lotaria um teatro para ver um homem supostamente entrar numa garrafa tinha um público ávido por prodígios. No caso de Toft, a curiosidade fez uma alegação impossível circular com força. O que permaneceu na história foi menos um mistério biológico do que uma pergunta sobre como se concede confiança a uma afirmação.