Em 1826, a Argentina trouxe cabras da Ásia para produzir uma fibra de luxo: quase 200 anos depois, sua lã patagônica chega à alta costura mundial

A primeira tentativa, perto de Buenos Aires, quase fez tudo dar errado.

A cabra angorá chegou à Argentina em 1826 como parte de uma tentativa de diversificar a produção rural. Quase dois séculos depois, a lã mohair criada na Patagônia abastece a indústria têxtil e desperta interesse da alta costura por seu brilho, resistência e toque sedoso.

Como a cabra angorá chegou à Argentina?

Os primeiros animais foram importados durante o governo de Bernardino Rivadavia e instalados em Chacarita, nos arredores de Buenos Aires. A umidade da região dificultou a adaptação da raça, originária da Ásia Menor. O projeto ganhou outro rumo quando os rebanhos avançaram para áreas mais secas da Argentina, adequadas à criação extensiva e à produção de fibras especiais.

  • A raça foi introduzida no país em 1826.
  • O ensaio inicial ocorreu perto de Buenos Aires.
  • O clima árido favoreceu sua expansão no sul argentino.

Da Chacarita aos campos da Patagônia

A Patagônia ofereceu pastagens abertas, baixa umidade e temperaturas compatíveis com a rusticidade desses caprinos. Em 1920, um núcleo de melhoramento instalado em Llamuco, na província de Neuquén, ajudou a difundir a genética da cabra angorá por Río Negro e Chubut.

A criação passou a integrar a renda de pequenos produtores em áreas rurais isoladas. Na Argentina, a esquila, a classificação dos velos e a comercialização coletiva estruturaram uma cadeia produtiva ligada ao território, com conhecimento transmitido entre famílias e apoio de técnicos especializados.

O clima seco da Patagônia permitiu que a cabra angorá se adaptasse e se expandisse no sul argentino – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
O clima seco da Patagônia permitiu que a cabra angorá se adaptasse e se expandisse no sul argentino – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial - Catraca Livre

O que torna a lã mohair tão valorizada?

Embora seja chamada de lã mohair no uso cotidiano, essa matéria-prima é obtida do pelo da cabra angorá. A fibra apresenta superfície lisa, brilho acentuado e boa capacidade de receber tingimento. Também combina leveza e resistência, atributos procurados pela alta costura e por fabricantes de casacos, ternos, mantas e tecidos para decoração.

  • Finura: influencia o toque e define os usos mais nobres.
  • Comprimento: interfere na fiação e no rendimento industrial.
  • Brilho: realça cores e acabamentos do tecido.
  • Pureza: depende da retirada de impurezas e fibras indesejadas.

Qualidade depende da esquila ao beneficiamento

A lã mohair precisa ser separada por finura, comprimento, idade do animal e presença de fibras meduladas. A contaminação por matéria vegetal ou pelos grossos reduz o valor do lote. Por isso, instalações limpas, ferramentas adequadas e acondicionamento correto são etapas decisivas antes da lavagem e da penteagem.

O Programa Mohair, criado em 1998, ampliou a assistência aos criadores da Patagônia e estimulou melhoramento genético, classificação e vendas organizadas. Dados técnicos referentes a 2023 apontam uma produção argentina de 365 toneladas. O avanço da qualidade permite que parte da fibra deixe a Argentina lavada ou penteada, com maior valor agregado e condições de alcançar a alta costura internacional.

A separação cuidadosa das fibras desde a esquila define o valor e o destino do lote de mohair – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
A separação cuidadosa das fibras desde a esquila define o valor e o destino do lote de mohair – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial - Catraca Livre

Um ciclo histórico que chega às passarelas

A trajetória iniciada em 1826 mostra como uma experiência malsucedida perto de Buenos Aires encontrou condições produtivas a mais de mil quilômetros dali. Hoje, a cabra angorá sustenta uma atividade adaptada ao clima seco, às grandes distâncias e ao manejo familiar presente em Neuquén, Río Negro e Chubut.

Da esquila nos campos da Patagônia aos fios usados pela alta costura, a lã mohair percorre uma cadeia que exige seleção genética, classificação rigorosa e beneficiamento têxtil. Seu brilho nas passarelas carrega quase 200 anos de história rural da Argentina e o trabalho de comunidades que transformaram uma raça asiática em patrimônio produtivo regional.