Em 1928, um arquiteto alemão planejou bloquear o Estreito de Gibraltar, drenar o Mediterrâneo e criar um novo continente chamado Atlantropa
Hermann Sörgel nasceu em 1885 e trabalhava em Munique quando começou a divulgar a ideia.
Atlantropa foi um projeto concebido pelo arquiteto alemão Hermann Sörgel para redesenhar a geografia entre Europa e África. Apresentada em 1928, a proposta previa fechar parcialmente o Estreito de Gibraltar com uma barragem, reduzir o nível do Mediterrâneo e aproveitar as terras expostas para cidades, ferrovias e áreas agrícolas.

O que era Atlantropa e quem criou o projeto?
Hermann Sörgel nasceu em 1885 e trabalhava em Munique quando começou a divulgar a ideia. Ele acreditava que uma obra continental poderia enfrentar problemas como desemprego, falta de terras, aumento da demanda por eletricidade e conflitos entre países europeus. O plano combinava arquitetura, engenharia, produção de energia e uma nova organização política do território.
Embora seja frequentemente descrito como uma tentativa de drenar o Mediterrâneo, o projeto não previa eliminar toda a água. A intenção era restringir a entrada do Atlântico e permitir que a evaporação baixasse gradualmente o nível do mar. Diferentes versões calculavam reduções próximas de 100 metros em um século, podendo chegar a 200 metros em determinados setores.
Como a barragem no Estreito de Gibraltar mudaria o mar?
A principal estrutura seria uma gigantesca barragem hidrelétrica no Estreito de Gibraltar. Ao controlar a água que entra pelo Atlântico, ela produziria eletricidade e faria a costa recuar durante décadas. O desenho previa consequências diretas sobre toda a bacia:
- redução progressiva do nível do Mediterrâneo;
- exposição de grandes áreas do antigo fundo do mar;
- formação de novas planícies junto às costas;
- deslocamento de portos para longe da água;
- criação de estradas, ferrovias e novos assentamentos;
- produção de energia em enormes usinas hidrelétricas.
Quais outras obras faziam parte do supercontinente?
A barragem de Gibraltar era apenas o núcleo de uma rede muito maior. Sörgel também imaginava uma ligação entre a Sicília e a Tunísia, capaz de separar setores do mar e aproximar fisicamente a Europa do norte da África. Outra barragem na região dos Dardanelos controlaria a conexão com o Mar Negro.
Na África, os planos incluíam intervenções nos rios Congo e Chade, a criação de extensos reservatórios e sistemas de irrigação para o Saara. A energia gerada seria distribuída por uma rede elétrica continental. As novas terras receberiam agricultura, indústrias e cidades planejadas, formando o território que Hermann Sörgel chamava de Atlantropa.

Por que o plano teria consequências tão profundas?
O rebaixamento do Mar Mediterrâneo alteraria ambientes construídos ao longo de milhares de anos. A salinidade aumentaria, ecossistemas marinhos seriam transformados e cidades portuárias deixariam de ocupar a costa. Entre os principais impactos previstos atualmente estão:
- destruição ou deslocamento de habitats marinhos;
- mudanças nas correntes, na temperatura e na salinidade da água;
- prejuízos à pesca e às comunidades costeiras;
- necessidade de reconstruir portos e canais de navegação;
- transformação de deltas, praias e ilhas;
- remoção de populações instaladas nas áreas afetadas.
O projeto também carregava uma visão colonialista. Apesar de defender a união entre os continentes, Sörgel tratava grande parte da África como espaço disponível para ocupação, extração de recursos e planejamento europeu. Os interesses das populações africanas e dos países mediterrâneos quase não apareciam nas decisões sobre o território.
Por que Atlantropa nunca saiu do papel?
A proposta recebeu ampla cobertura e contou com a participação de arquitetos, artistas e desenhistas. Entre 1928 e 1933, centenas de artigos apresentaram mapas, barragens e cidades imaginadas para o novo continente. Mesmo assim, nenhum governo assumiu os custos, a coordenação internacional ou as consequências territoriais de uma obra que levaria mais de um século.
As crises políticas, o nazismo, a Segunda Guerra Mundial e a reorganização europeia do pós-guerra afastaram qualquer possibilidade de execução. Hermann Sörgel continuou promovendo Atlantropa até morrer em um acidente, em 1952. O instituto criado para defender o projeto foi dissolvido em 1960, deixando mapas e documentos como registro de uma época em que engenheiros acreditavam ser possível redesenhar continentes inteiros.