Em 1946, introduziram 20 castores na Argentina para criar uma indústria de peles: 80 anos depois, devastaram as florestas ancestrais da Patagônia.
A introdução aconteceu em uma época na qual os impactos das espécies exóticas ainda eram pouco considerados nas decisões econômicas.
Em 1946, autoridades argentinas introduziram 20 castores-do-canadá na Ilha Grande da Terra do Fogo com o objetivo de formar uma população selvagem destinada à indústria de peles. O negócio não prosperou, mas os animais encontraram água, madeira e ausência de predadores naturais, espalhando-se por uma das regiões florestais mais frágeis da Patagônia.

Por que os castores foram levados para a Terra do Fogo?
A introdução aconteceu em uma época na qual os impactos das espécies exóticas ainda eram pouco considerados nas decisões econômicas. A intenção era aproveitar a pele do castor e criar uma nova atividade produtiva em uma região com baixa ocupação humana.
A introdução dos castores na Patagônia reuniu condições que favoreceram uma expansão inesperada:
- Grande quantidade de rios, córregos e áreas úmidas;
- Disponibilidade de árvores para alimentação e construção de diques;
- Ausência dos principais predadores encontrados na América do Norte;
- Capacidade de adaptação ao clima frio da Terra do Fogo;
- Falta de controle populacional durante as primeiras décadas.
Como apenas 20 animais se transformaram em uma invasão?
Os castores encontraram um ambiente com poucos obstáculos à reprodução e passaram a ocupar rios e riachos dos lados argentino e chileno do arquipélago. Estimativas oficiais indicam que a população ultrapassou 100 mil indivíduos e que cerca de 95% das bacias hidrográficas da Terra do Fogo apresentam sinais de ocupação.
Um levantamento baseado em imagens de satélite identificou mais de 206 mil diques no arquipélago, aproximadamente metade em território argentino e metade no Chile. A concentração é maior nas áreas florestais, onde existe maior disponibilidade de troncos, galhos e folhas.
Por que os diques provocam tanta destruição nas florestas?
Em seu ambiente de origem, o castor também modifica rios e derruba árvores. O problema é que as florestas austrais não evoluíram convivendo com esse tipo de intervenção. Ao construir barragens, o animal interrompe ou desvia o fluxo da água, alaga o solo e mantém as raízes das árvores permanentemente encharcadas.
Espécies nativas como lenga, guindo e ñire não suportam longos períodos de inundação. Além disso, não apresentam a mesma capacidade de regeneração observada em algumas árvores norte-americanas depois de serem cortadas. Entre os efeitos registrados estão:
- Morte de árvores por excesso de água nas raízes;
- Derrubada de troncos usados na construção das barragens;
- Transformação de florestas em áreas abertas e alagadas;
- Alteração do curso e da velocidade dos rios;
- Entrada de plantas exóticas nas clareiras formadas;
- Perda de ambientes usados pela fauna nativa.
Levantamentos apontam aproximadamente 30 mil a 31,5 mil hectares afetados somente no setor argentino da ilha. Em algumas áreas, a recuperação pode levar décadas, enquanto árvores como a lenga podem precisar de cerca de 200 anos para recompor a estrutura original da floresta.

Os danos atingem apenas as árvores da Patagônia?
A invasão também interfere nas turfeiras, na qualidade da água, na produção florestal, na pecuária e nos habitats aquáticos. As barragens acumulam sedimentos, modificam a disponibilidade de nutrientes e podem afetar estradas, canais de drenagem e áreas utilizadas por comunidades locais.
Os impactos mais amplos incluem:
- Alteração de fontes e cursos de água;
- Redução da capacidade de retenção de carbono das turfeiras;
- Danos a áreas de produção florestal e agropecuária;
- Mudanças nas populações de peixes e outros organismos aquáticos;
- Custos elevados para monitoramento, controle e restauração.
Uma estimativa oficial calculou perdas anuais superiores a 66 milhões de dólares na Terra do Fogo argentina. Existe ainda a preocupação de que a espécie avance pelo território continental e alcance novas áreas da cordilheira patagônica.
É possível recuperar as áreas ocupadas pelos castores?
Argentina e Chile desenvolvem ações conjuntas para conter a expansão, remover populações em áreas prioritárias e restaurar os ambientes afetados. Projetos-piloto criaram zonas livres da espécie para acompanhar a reação dos cursos de água, do solo e da vegetação depois que a pressão constante dos castores é interrompida.
Alguns locais apresentam sinais de recuperação, mas o processo é lento e nem sempre devolve a composição original da floresta. O caso dos castores da Terra do Fogo tornou-se um exemplo das consequências duradouras que podem surgir quando uma espécie é introduzida por interesse econômico sem que seu impacto sobre o ecossistema seja compreendido.