Em 2008, a Espanha começou a encher uma mina de carvão de 300 metros de profundidade com 547 bilhões de litros de água; quatro anos depois, tornou-se um dos maiores lagos artificiais do país
A mineração a céu aberto em As Pontes produziu uma cavidade gigantesca.
Na Galícia, no noroeste da Espanha, uma antiga mina de lignito deixou uma escavação com mais de 300 metros de profundidade após décadas de exploração. Em janeiro de 2008, começou um enorme projeto de recuperação ambiental: transformar o vazio da mina de As Pontes em um lago. Quando o enchimento terminou, em abril de 2012, aproximadamente 547 bilhões de litros de água ocupavam a antiga área de mineração.

Como uma mina tão profunda acabou transformada em lago?
A mineração a céu aberto em As Pontes produziu uma cavidade gigantesca. Entre 1976 e 2007, foram extraídas cerca de 261 milhões de toneladas de lignito e movimentados enormes volumes de material para chegar às camadas de carvão. Após o encerramento da exploração, deixar o terreno simplesmente abandonado não era uma solução adequada para uma área daquele tamanho.
O plano escolhido foi inundar a escavação de maneira controlada e reintegrá-la ao sistema hídrico da região. Estudos anteriores ao enchimento analisaram estabilidade das encostas, qualidade da água, vazão disponível e o comportamento químico que o futuro lago poderia apresentar.
- O enchimento começou em janeiro de 2008;
- A capacidade projetada era de aproximadamente 547 milhões de metros cúbicos;
- A superfície final alcançou cerca de 865 hectares;
- O lago possui aproximadamente 17,8 quilômetros de perímetro;
- A profundidade máxima da água ficou em torno de 200 metros.
De onde vieram 547 bilhões de litros de água?
Não se tratou simplesmente de bombear água para dentro da mina. O Lago de As Pontes recebeu aportes do rio Eume, da chuva, do escoamento superficial, de águas subterrâneas e de outras bacias que haviam sido modificadas durante a atividade mineradora. O sistema foi planejado para controlar tanto a velocidade de enchimento quanto a composição química da água.
Por que a qualidade da água era um dos maiores desafios?
Áreas de antigas minas podem produzir águas ácidas quando minerais expostos pela escavação entram em contato com oxigênio e água. Em As Pontes, por isso, não bastava alcançar determinado nível: era necessário prever concentrações de metais, sulfatos, acidez e outras características antes que o lago começasse a transbordar para cursos d’água próximos.
O acompanhamento revelou uma característica interessante. O lago desenvolveu duas zonas de água separadas por uma chamada quimioclina. A camada superior apresenta condições oxigenadas e acidez relativamente pequena, enquanto águas profundas são mais ácidas e pobres em oxigênio. Mesmo assim, as medições das águas de transbordamento ficaram dentro dos limites estabelecidos no projeto.
- A química da água foi acompanhada durante o enchimento;
- Modelos calcularam como diferentes fontes de água se misturariam;
- A estabilidade das antigas encostas da mina também foi estudada;
- Cursos d’água desviados pela mineração foram reincorporados ao sistema;
- O processo continuou sendo monitorado depois de o lago atingir o nível final.

Áreas de antigas minas podem produzir águas ácidas quando minerais expostos pela escavação entram em contato com oxigênio e água. - Imagem gerada por IA
O lago realmente tem 300 metros de profundidade?
A manchete se refere à profundidade alcançada pela escavação da mina, que ultrapassou 300 metros em determinadas áreas. O lago formado dentro dela é menos profundo: projetos técnicos descrevem uma profundidade de aproximadamente 206 metros. Com cerca de 865 hectares e 547 hectômetros cúbicos de água, a Endesa o descreve como o maior lago da Espanha em volume e superfície entre os criados por esse tipo de recuperação.
O que existe hoje onde durante décadas houve uma mina de carvão?
A transformação da antiga mina de As Pontes produziu uma paisagem radicalmente diferente daquela deixada pela mineração. Além do enorme corpo d’água, a recuperação das áreas próximas criou vegetação, habitats para animais e espaços destinados a banho e atividades recreativas. Levantamentos divulgados pela empresa responsável pelo projeto identificaram centenas de espécies vegetais e de vertebrados na área restaurada.
O resultado não apaga as décadas de alteração provocadas pela extração de lignito, nem transforma automaticamente uma mina em um ecossistema natural. Ele mostra, porém, a escala que uma recuperação pós-mineração pode alcançar: uma cavidade industrial gigantesca recebeu 547 bilhões de litros de água em pouco mais de quatro anos e passou a funcionar como um novo elemento permanente da paisagem galega, onde antes havia uma das maiores minas de carvão a céu aberto da Espanha.