Em Galápagos, cabras foram utilizadas como rastreadoras para eliminar mais de 140.000 espécies invasoras. Anos depois, a vegetação e as aves começaram a se recuperar em três ilhas devastadas

Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras.

As cabras invasoras em Galápagos chegaram a ocupar áreas inteiras de Pinta, Santiago e do norte de Isabela, destruindo plantas que haviam evoluído sem a pressão de grandes herbívoros. Para eliminar mais de 140 mil animais, conservacionistas recorreram até a cabras equipadas com transmissores, que procuravam espontaneamente os últimos integrantes dos rebanhos. Anos depois, árvores, cactos e aves começaram a responder à retirada dessa pressão.

Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras.
Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras.Imagem gerada por inteligência artificial

Como as cabras transformaram três ilhas de Galápagos?

Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras. Sem predadores capazes de controlar suas populações, os animais se multiplicaram e passaram a consumir brotos, folhas, cascas e cactos em uma velocidade que a vegetação nativa não conseguia acompanhar.

No norte de Isabela, o problema atingiu especialmente áreas utilizadas pelas tartarugas-gigantes. Florestas que forneciam sombra e ajudavam a reter água durante a estação seca foram degradadas pelo pastoreio. Entre os principais impactos estavam:

  • Consumo de árvores e arbustos antes que as mudas conseguissem crescer;
  • Redução de cactos e outras plantas nativas;
  • Competição por alimento com tartarugas-gigantes;
  • Maior exposição do solo à erosão;
  • Perda de abrigo e alimento para aves e insetos.

Por que eliminar quase todas as cabras ainda não resolvia o problema?

O Projeto Isabela, iniciado em 1997 e concluído em 2006, utilizou equipes em terra, cães, helicópteros, mapas digitais e monitoramento para retirar os grandes rebanhos. Somente nos primeiros sete meses de operações no norte de Isabela, mais de 55 mil cabras foram eliminadas. O desafio surgia no final: poucos indivíduos escondidos entre campos de lava, crateras e vegetação poderiam voltar a reproduzir e reconstruir toda a população.

Como funcionavam as cabras Judas usadas como rastreadoras?

A solução explorou o próprio comportamento social dos animais. Algumas cabras eram capturadas, esterilizadas, equipadas com coleiras de radiotelemetria e libertadas novamente. Chamadas de cabras Judas, elas naturalmente procuravam outros exemplares de sua espécie e acabavam conduzindo as equipes até indivíduos que seriam muito difíceis de encontrar por uma busca convencional.

No norte de Isabela foram utilizadas cerca de 770 dessas rastreadoras, enquanto Santiago recebeu mais de 200. A estratégia permitia localizar sucessivamente grupos cada vez menores. O processo funcionava desta maneira:

  • A cabra rastreadora recebia uma coleira com transmissor;
  • Depois de solta, procurava outros animais por comportamento social;
  • As equipes acompanhavam sua localização à distância;
  • As cabras selvagens encontradas ao redor eram removidas;
  • A rastreadora podia permanecer no campo para procurar outro grupo.

    Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras.
    Cabras foram introduzidas no arquipélago por navegadores que as deixavam nas ilhas como fonte de alimento para viagens futuras.Imagem gerada por inteligência artificial

O que aconteceu com a vegetação depois da retirada dos animais?

A resposta começou a aparecer quando a pressão constante do pastoreio desapareceu. Em Santiago e no norte de Isabela, pequenos troncos voltaram a brotar, novas mudas surgiram e populações de árvores, arbustos de altitude e cactos Opuntia aumentaram. Algumas plantas endêmicas antes restritas a crateras ou áreas protegidas também começaram a recolonizar regiões abertas.

As aves também começaram a voltar às áreas restauradas?

Sim. Em Santiago, o rascão-de-Galápagos voltou a ser encontrado em maior abundância nas terras altas conforme a cobertura vegetal se recuperou. A retirada das cabras, somada à eliminação de porcos e burros introduzidos, também melhorou as condições de nidificação de outras espécies nativas. Pinta apresentou rápida regeneração de sua vegetação depois que a pressão das cabras desapareceu, mostrando como algumas comunidades vegetais ainda conservavam capacidade de se reconstruir.

Isso não significa que Pinta, Santiago e o norte de Isabela tenham retornado completamente ao estado existente antes da chegada de animais introduzidos. Algumas plantas invasoras, como a amora-preta em Santiago, aproveitaram as novas condições e passaram a exigir controle próprio. Mesmo assim, o Projeto Isabela demonstrou algo raro em restauração ecológica: depois da remoção de mais de 140 mil cabras invasoras, ecossistemas que pareciam profundamente degradados começaram a reconstruir sozinhos parte da vegetação e dos habitats usados por aves, tartarugas e outros animais de Galápagos.