Enquanto apanhava mirtilos, homem encontrou destroços de um avião da Segunda Guerra Mundial que podem guardar uma tripulação desaparecida

Munição britânica, peças com marcas da RAF e alterações no solo indicam que uma aeronave aliada pode continuar enterrada na Polônia.

Um passeio para colher mirtilos terminou com uma descoberta capaz de reabrir uma história perdida da Segunda Guerra Mundial. Em uma floresta costeira de Świnoujście, na Polônia, fragmentos de alumínio, munição queimada e marcas britânicas revelaram o provável local de queda de uma aeronave aliada.

Um morador caminhava pela área leste da cidade quando percebeu um buraco cercado por pedaços metálicos espalhados entre a vegetação.
Um morador caminhava pela área leste da cidade quando percebeu um buraco cercado por pedaços metálicos espalhados entre a vegetação. - Imagem gerada por IA

Como os destroços foram encontrados?

Um morador caminhava pela área leste da cidade quando percebeu um buraco cercado por pedaços metálicos espalhados entre a vegetação. Ele levou um dos fragmentos até a Cidade Subterrânea, antigo centro militar da Guerra Fria que hoje integra o Museu de Defesa Costeira em Fort Gerhard.

A equipe do museu voltou ao local e encontrou dezenas de peças. Segundo o pesquisador Wiktor Czeszewski, as chapas finas de alumínio, os padrões de rebitagem e os vestígios de construção indicavam que o material pertencia a uma aeronave, e não a equipamentos industriais abandonados.

Morador identifica peças metálicas em área florestal na Polônia.
Morador identifica peças metálicas em área florestal na Polônia. - Créditos: Museu de Defesa Costeira em Świnoujście

Quais sinais apontam para uma aeronave britânica?

A munição queimada foi identificada preliminarmente como calibre .303 British, utilizado em metralhadoras Browning instaladas em aeronaves britânicas. Outro indício apareceu em um tubo de cobre marcado com o código “T7”, descrito na documentação técnica da Força Aérea Real Britânica.

De acordo com o pesquisador Kacper Stachula, essa marca identificava tubos usados em sistemas de combustível, óleo, gás e ignição. A presença de uma conexão de alta pressão Avimo reforçou a origem britânica, pois esse componente aparecia em sistemas ligados aos motores Rolls-Royce Merlin.

  • A munição encontrada corresponde ao padrão usado por aeronaves militares britânicas.
  • O código T7 aparece em especificações técnicas da RAF para tubos de cobre.
  • A conexão Avimo era utilizada em sistemas que transportavam líquidos e gases sob pressão.
  • O motor Rolls-Royce Merlin equipou modelos como Lancaster, Mosquito e Spitfire.

Os fragmentos podem pertencer a um Lancaster?

O Museu de Defesa Costeira já preserva uma seção de asa de um Avro Lancaster recuperada por pescadores no Mar Báltico em 2009. A peça foi encontrada a cerca de um quilômetro do novo sítio, o que levantou a possibilidade de que os dois conjuntos tenham pertencido à mesma aeronave.

Registros anteriores relacionaram a asa a três tripulantes que sobrevoaram Świnoujście durante missões contra instalações industriais próximas de Police ou Szczecin. A rota, a proximidade entre as descobertas e os componentes britânicos formam uma ligação considerada relevante pelos pesquisadores.

Evidências conectam novos achados à asa achada no Báltico.
Evidências conectam novos achados à asa achada no Báltico. - Créditos: Museu de Defesa Costeira em Świnoujście

O que o terreno revela sobre o acidente?

O diretor do museu, Piotr Piwowarczyk, observou elevações e depressões que não parecem naturais. Somadas ao solo revolvido e à concentração de detritos, essas alterações sugerem que uma parte maior da fuselagem pode continuar enterrada sob a floresta.

A região viveu intensa atividade aérea nos últimos meses da guerra. Na época chamada Swinemünde, a cidade possuía uma base naval, canhões costeiros e defesas antiaéreas. Bombardeiros aliados, caças, aeronaves de reconhecimento e aviões soviéticos cruzavam frequentemente aquele corredor.

Por que o local precisa ser protegido agora?

Os pesquisadores não descartam que integrantes da tripulação ainda estejam sob os destroços. Czeszewski afirmou que o terreno deve ser examinado profissionalmente o mais rápido possível, pois a descoberta pode envolver não apenas arqueologia aeronáutica, mas também uma possível sepultura militar de guerra.

O museu acionou órgãos de conservação, autoridades florestais e instituições responsáveis por túmulos militares, sem divulgar a localização exata. A atitude é essencial para evitar escavações amadoras e preservar evidências. Neste momento, proteger a área é também uma forma de respeitar quem pode ter permanecido ali por mais de oito décadas.