Esse peixe usa uma “lanterna vermelha” debaixo dos olhos para enxergar presas que vivem em um mundo onde o vermelho praticamente desaparece
Loosejaws das profundezas produzem uma luz que conseguem enxergar, mas que muitas de suas possíveis presas percebem com enorme dificuldade.
Nas profundezas do oceano, onde a luz do Sol praticamente desapareceu, alguns peixes carregam uma vantagem que parece saída de um equipamento de espionagem. Certos dragonfishes conhecidos como loosejaws produzem luz vermelha em órgãos abaixo dos olhos e conseguem enxergar aquilo que iluminam, enquanto muitas de suas possíveis presas mal percebem que estão sendo observadas.

Por que a cor vermelha desaparece no oceano?
A água não permite que todas as cores da luz solar avancem da mesma maneira. Comprimentos de onda longos, como os associados ao vermelho, são absorvidos rapidamente nas camadas superiores. Conforme a profundidade aumenta, predominam tons azulados até que, muito abaixo da superfície, também eles desaparecem e a escuridão se torna praticamente permanente.
Essa ausência influenciou a visão dos habitantes das profundezas. Muitos peixes possuem sistemas visuais especialmente sensíveis ao azul e ao azul-esverdeado, justamente as faixas mais comuns na pouca luz disponível e na bioluminescência marinha. Para eles, uma iluminação vermelha intensa pode ser muito menos perceptível do que seria para nós.

Onde fica a lanterna vermelha desses peixes?
Alguns dragonfishes desenvolveram órgãos luminosos chamados fotóforos. Em gêneros como Malacosteus, Aristostomias e Pachystomias, existem fotóforos suborbitais capazes de produzir luz de comprimentos de onda mais longos. Na prática, eles ficam na região abaixo dos olhos e funcionam como fontes de iluminação controladas pelo próprio peixe.
O efeito lembra uma pequena lanterna apontada para a escuridão. Enquanto diversos organismos bioluminescentes produzem luz azulada, esses predadores acrescentaram o vermelho ao repertório. A diferença é decisiva porque eles também possuem adaptações visuais que permitem detectar essa faixa de luz que muitos vizinhos das profundezas enxergam mal.
Como essa luz ajuda na hora de caçar?
Imagine procurar alimento em um ambiente completamente escuro carregando uma lanterna que sua presa dificilmente consegue perceber. Essa é uma das hipóteses para a vantagem oferecida pela bioluminescência vermelha: o dragonfish ilumina uma pequena área à sua frente e consegue examinar possíveis alvos sem produzir o tipo de clarão azul facilmente detectável por outros animais.
Esse sistema combina características pouco comuns entre os habitantes das profundezas e cria aquilo que pesquisadores descrevem como uma espécie de faixa luminosa privada:
- A luz vermelha natural quase não alcança as grandes profundidades do oceano.
- Muitos animais profundos são mais sensíveis aos tons azuis e azul-esverdeados.
- Alguns loosejaws produzem sua própria bioluminescência vermelha abaixo dos olhos.
- Esses peixes também conseguem detectar comprimentos de onda que várias presas perceberiam com dificuldade.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Mundo Indomável mostrando um dragonfish no oceano.
Como o dragonfish consegue enxergar o próprio vermelho?
Produzir uma luz especial não teria muita utilidade se o próprio predador não pudesse enxergá-la. Por isso, essas espécies desenvolveram adaptações visuais incomuns. No caso de Malacosteus niger, a retina possui mecanismos que aumentam sua sensibilidade a comprimentos de onda longos, permitindo aproveitar melhor a iluminação que o peixe produz.
Uma das adaptações mais curiosas envolve um composto derivado de bacterioclorofila que atua como sensibilizador na retina. Esse sistema ajuda o peixe a detectar luz em faixas que estão além da sensibilidade típica de muitos animais das profundezas, tornando sua combinação entre iluminação e visão ainda mais especializada.
A escuridão criou uma vantagem quase invisível
Os loosejaws mostram que a ausência de luz não significa simplesmente enxergar menos. Nas profundezas, a evolução transformou pequenas diferenças de comprimento de onda em ferramentas de sobrevivência. O peixe não precisa iluminar todo o ambiente: basta produzir uma cor que ele consegue perceber melhor do que muitos dos animais ao redor.
É por isso que essa pequena “lanterna vermelha” chama tanta atenção. Ela transforma uma cor praticamente ausente naquele mundo em uma possível arma de caça. Ao imaginar as profundezas como um lugar completamente escuro, vale lembrar que alguns predadores aprenderam a criar a própria luz e a usá-la sem anunciar sua presença.