Esta serpente come sapos venenosos, rouba suas toxinas e armazena o veneno no próprio pescoço para usar contra predadores

A serpente Rhabdophis tigrinus rouba toxinas de sapos, armazena os compostos no pescoço e pode até repassar parte da defesa aos filhotes.

A Rhabdophis tigrinus consegue fazer algo raro até entre serpentes: transformar a química de uma presa em seu próprio escudo defensivo. Ao comer determinados sapos, ela sequestra bufadienolídeos, compostos tóxicos que depois ficam armazenados em glândulas especiais na região do pescoço e podem ser liberados quando um predador a ataca.

A espécie possui estruturas chamadas glândulas nucais, alinhadas na parte dorsal do pescoço.
A espécie possui estruturas chamadas glândulas nucais, alinhadas na parte dorsal do pescoço.Imagem gerada por inteligência artificial

Onde essa serpente guarda as toxinas roubadas?

A espécie possui estruturas chamadas glândulas nucais, alinhadas na parte dorsal do pescoço. Elas não funcionam como as glândulas de veneno associadas às presas de serpentes peçonhentas. Seu papel principal é defensivo: quando a região é comprimida ou danificada durante um ataque, o conteúdo tóxico pode atingir a boca do predador.

Os compostos mais estudados são bufadienolídeos, esteroides cardiotônicos também presentes em sapos. A coincidência química levou pesquisadores a perguntar se a serpente produzia essas substâncias ou se simplesmente as retirava do alimento.

Mecanismo evolutivo que armazena toxinas obtidas pela alimentação para proteção contra predadores.
Mecanismo evolutivo que armazena toxinas obtidas pela alimentação para proteção contra predadores. - Créditos: Imagem criada por IA.

Como os cientistas provaram que a toxina vem dos sapos?

Um estudo publicado por pesquisadores ligados à Old Dominion University comparou serpentes de regiões com e sem sapos tóxicos e criou filhotes sob dietas controladas. Animais alimentados sem sapos não desenvolveram o mesmo arsenal, enquanto aqueles que receberam sapos passaram a acumular bufadienolídeos nas glândulas nucais.

A evidência ficou ainda mais forte porque populações naturais de áreas sem os anfíbios apresentavam pouca ou nenhuma defesa esteroidal. Em outras palavras, a química do pescoço da serpente refletia a disponibilidade de uma presa no ambiente.

O que acontece quando um predador tenta atacar?

A serpente pode arquear o pescoço e apresentar a região das glândulas em direção à ameaça. Se o tecido for pressionado, a secreção oferece uma defesa química que não depende de a cobra fabricar o composto do zero.

Os detalhes que tornam esse sistema tão incomum incluem:

  • As glândulas nucais ficam na região do pescoço e armazenam compostos defensivos.
  • Serpentes criadas sem sapos tóxicos podem ficar sem os bufadienolídeos que protegem populações com acesso a essas presas.
  • Quando recebem sapos na dieta, os animais conseguem incorporar as toxinas às próprias glândulas.
  • Fêmeas com reservas elevadas podem transferir parte dos compostos aos descendentes.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Biólogo Henrique que apresenta a Rhabdophis tigrinus e suas defesas incomuns:

As mães conseguem entregar essa defesa aos filhotes?

Sim. Pesquisas posteriores mostraram que fêmeas com reservas elevadas podem transferir bufadienolídeos para ovos e descendentes. Filhotes podem nascer quimicamente protegidos antes mesmo de capturar o primeiro sapo, desde que a mãe tenha acumulado compostos suficientes.

Experimentos também encontraram mudanças no comportamento de forrageamento durante a reprodução, sugerindo que fêmeas grávidas podem buscar presas tóxicas de maneira especialmente ativa. É um exemplo raro de uma defesa obtida pela dieta que atravessa gerações.

Por que esse caso muda a ideia de que veneno sempre é produzido pelo animal?

A Rhabdophis tigrinus mostra que a evolução também pode aproveitar moléculas prontas do ambiente. O animal precisa encontrar, ingerir e transportar compostos que outro organismo produziu, transformando uma refeição perigosa em proteção contra seus próprios inimigos.

Esse tipo de sequestro químico aproxima a serpente de outros animais que armazenam toxinas alimentares, mas a presença de glândulas especializadas no pescoço torna o sistema particularmente sofisticado. A arma do sapo deixa de ser apenas defesa da presa e passa a integrar a biologia de quem a comeu.