Estas formigas decidem se devem limpar uma ferida ou amputar a perna inteira da companheira para salvá la

Formigas-carpinteiras amputam pernas de companheiras feridas em casos específicos e podem elevar a chance de sobrevivência.

A companheira está ferida, e outra formiga começa a limpar sua perna. Em alguns casos, o cuidado avança para uma medida radical: mordidas repetidas até retirar o membro. Pesquisadores descobriram que formigas-carpinteiras da Flórida ajustam o tratamento ao local da lesão. Ferimentos na parte superior podem levar à amputação; mais abaixo, a resposta é diferente.

O comportamento foi estudado em Camponotus floridanus, espécie encontrada no sudeste dos Estados Unidos
O comportamento foi estudado em Camponotus floridanus, espécie encontrada no sudeste dos Estados UnidosImagem gerada por inteligência artificial

Como essas formigas fazem uma amputação?

O comportamento foi estudado em Camponotus floridanus, espécie encontrada no sudeste dos Estados Unidos. Nos experimentos, operárias tratavam companheiras com lesões nas pernas. Quando o ferimento atingia o fêmur, a parte superior, elas limpavam a área e mordiam repetidamente perto da articulação até separar o membro.

O processo pode levar pelo menos quarenta minutos. A descrição lembra uma cirurgia, mas acontece por uma sequência de comportamentos do inseto, sem instrumentos. O estudo foi publicado em 2024 na Current Biology por uma equipe que incluiu Erik Frank, da Universidade de Würzburg, e Laurent Keller, da Universidade de Lausanne.

Formigas-carpinteiras amputam pernas feridas para impedir infecções e salvar companheiras.
Formigas-carpinteiras amputam pernas feridas para impedir infecções e salvar companheiras. - Créditos: Imagem criada por IA.

Perder uma perna realmente aumenta a sobrevivência?

Nas condições estudadas, a retirada do membro ferido ajudou a impedir a disseminação de infecções e esteve associada a sobrevivência em torno de 90%. A divulgação da Universidade de Würzburg destaca que os animais podiam voltar a desempenhar tarefas no ninho mesmo depois de perder uma das seis pernas.

O resultado não significa que qualquer ferimento deva levar à mesma resposta. O efeito depende da região atingida e do momento do cuidado. Foi justamente ao comparar lesões em diferentes partes da perna que os pesquisadores encontraram a característica mais surpreendente desse comportamento.

Por que elas não amputam quando o ferimento fica na tíbia?

Quando a lesão estava na tíbia, a parte mais baixa da perna, as operárias não realizavam a amputação. Em vez disso, intensificavam a limpeza, lambendo a área. Essa forma de cuidado também apresentou resultado importante, com sobrevivência próxima de 75% nas condições descritas pela universidade.

A diferença levou a equipe a investigar a circulação interna. Exames por tomografia mostraram que os músculos do fêmur participam da movimentação da hemolinfa, o líquido circulatório dos insetos. Uma lesão ali pode reduzir o fluxo e retardar a passagem de bactérias do ferimento para outras partes do corpo.

A mudança de tratamento conforme a parte ferida é o detalhe central da pesquisa. Entenda as amputações observadas nas formigas no vídeo do canal do YouTube Dr Ben Miles:

O que a velocidade da infecção tem a ver com a escolha?

No fêmur lesionado, a circulação prejudicada pode abrir uma janela para que a amputação seja útil. Na tíbia, a infecção pode se espalhar mais depressa, e o procedimento demorado perde sua vantagem. A explicação relaciona anatomia, tempo e resposta comportamental, sem exigir uma decisão formulada como a de um médico.

Os pesquisadores também realizaram amputações experimentais em lesões infectadas da parte inferior, obtendo resultados desfavoráveis em comparação com o cuidado adequado. O contraste ajuda a entender por que a localização importa:

  • No fêmur, a resposta observada podia incluir limpeza e amputação.
  • Na tíbia, as operárias concentravam o cuidado na limpeza.
  • O benefício dependia da rapidez com que a infecção poderia se espalhar.

Podemos dizer que elas praticam medicina consciente?

A comparação com medicina chama atenção para o efeito de salvar companheiras, mas não demonstra consciência semelhante à humana. O estudo mostrou um comportamento ajustado ao tipo de ferimento. Ainda há perguntas sobre os sinais percebidos pelas operárias e sobre como essa sequência se desenvolve.

A capacidade física das formigas já surpreende quando elas transportam cargas. Aqui, o interesse está no cuidado social: uma colônia pode se beneficiar ao manter vivas e ativas operárias feridas. O gesto parece brutal à primeira vista, mas seu resultado depende de uma precisão inesperada sobre onde a perna foi atingida.