Estatueta de 12 mil anos mostra uma mulher com um ganso sobre as costas em uma cena que intriga arqueólogos

Uma peça de argila menor que quatro centímetros está obrigando arqueólogos a repensar a espiritualidade de comunidades que viveram no Oriente Próximo

Uma peça de argila menor que quatro centímetros está obrigando arqueólogos a repensar a espiritualidade de comunidades que viveram no Oriente Próximo há 12 mil anos. Encontrada no norte de Israel, a estatueta parece representar uma mulher agachada com um ganso sobre as costas, em uma cena simbólica que pode revelar antigas crenças sobre humanos, animais e forças espirituais.

O artefato foi localizado no sítio arqueológico de Nahal Ein Gev II, a cerca de dois quilômetros do Mar da Galileia.
O artefato foi localizado no sítio arqueológico de Nahal Ein Gev II, a cerca de dois quilômetros do Mar da Galileia. - Imagem gerada por IA

O que representa a estatueta encontrada em Israel?

O artefato foi localizado no sítio arqueológico de Nahal Ein Gev II, a cerca de dois quilômetros do Mar da Galileia. Segundo pesquisadores, a escultura mostra uma figura feminina inclinada para a frente enquanto um pássaro, provavelmente um ganso, permanece sobre suas costas com as asas abertas.

A equipe considera que a cena pode retratar o acasalamento simbólico entre um animal e uma mulher, interpretação relacionada a mitos nos quais seres humanos interagem com espíritos animais. Outra hipótese sugere uma caçadora carregando uma ave, mas a postura das figuras levou os especialistas a favorecer uma leitura ritual ou mitológica.

Estatueta de 12 mil anos em Israel sugere rica espiritualidade antes da agricultura.
Estatueta de 12 mil anos em Israel sugere rica espiritualidade antes da agricultura. - Laurent Davin; CC BY-NC-ND 4.0

Como os arqueólogos identificaram a figura feminina?

A estatueta foi moldada em um único bloco de argila, aquecida em uma lareira e coberta com pigmento mineral vermelho. Encontrada dividida em três fragmentos, ela mede apenas 3,7 centímetros de altura, mas conserva detalhes que permitiram aos pesquisadores analisar a anatomia e a posição das figuras.

Marcas triangulares na parte inferior foram interpretadas como uma representação do púbis feminino, enquanto impressões ovais próximas ao peito podem indicar seios. Laurent Davin, arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirmou que essa seria a imagem mais completa de um corpo humano já identificada na cultura natufiana.

Por que o ganso teria importância espiritual?

O estudo, publicado no periódico científico PNAS, aponta que ossos de gansos encontrados no assentamento indicam que essas aves eram usadas como alimento e também como matéria-prima para objetos decorativos. Essa presença frequente pode ter transformado o animal em uma figura importante no imaginário da comunidade.

Entre os elementos que sustentam a interpretação simbólica estão:

  • A Postura agachada da figura feminina;
  • O Pássaro aparentemente vivo sobre suas costas;
  • As Asas abertas envolvendo parcialmente o corpo;
  • O Pigmento vermelho aplicado após o aquecimento;
  • O Contexto funerário em que a peça foi descoberta.

Para Davin, narrativas sobre encontros entre espíritos humanos e animais aparecem em diferentes culturas históricas. A peça pode indicar que ideias semelhantes já circulavam muito antes dos grandes mitos escritos, revelando uma forma sofisticada de representar transformação, fertilidade ou contato com forças invisíveis.

Presença do ganso reflete antigos mitos sobre interação entre humanos e espíritos animais.
Presença do ganso reflete antigos mitos sobre interação entre humanos e espíritos animais. - Laurent Davin; CC BY-NC-ND 4.0

Uma mulher pode ter produzido o artefato?

Uma impressão digital parcial preservada na argila oferece uma pista sobre quem fabricou a estatueta. Ao comparar a densidade das cristas com impressões modernas de pessoas de sexo conhecido, os pesquisadores concluíram que existe a possibilidade de a peça ter sido modelada por uma mulher.

A hipótese ainda não é definitiva, mas reforça o debate sobre a participação feminina nas práticas espirituais natufianas. Davin sugeriu que o crescimento das representações femininas pode estar relacionado a uma presença mais relevante das mulheres na criação de imagens, na transmissão de crenças e na condução de rituais comunitários.

O que a descoberta revela sobre os natufianos?

Os natufianos foram caçadores-coletores sedentários que viveram entre 15 mil e 11.500 anos atrás em áreas hoje ocupadas por Israel, Palestina, Jordânia, Líbano e Síria. A estatueta foi encontrada em uma zona funerária, próxima ao sepultamento de uma criança e a um depósito incomum de dentes humanos.

Para Leore Grosman, arqueóloga da Universidade Hebraica de Jerusalém e coautora do estudo, o artefato aproxima o universo dos caçadores-coletores das primeiras comunidades agrícolas. A descoberta exige atenção imediata porque mostra que pensamento simbólico, criatividade e crenças complexas já moldavam a sociedade antes da revolução neolítica.