Este animal consegue beber água mais salgada que a do oceano e ainda sobreviveu por décadas em uma região nuclear

Estudos genéticos e projetos de conservação revelam como um dos grandes mamíferos mais raros da Ásia resiste a condições extremas no deserto de Gobi.

Beber água mais salgada que a do mar seria um problema sério para a maioria dos mamíferos, mas o camelo-bactriano-selvagem enfrenta justamente esse cenário no deserto de Gobi. A espécie Camelus ferus ainda carrega outro capítulo surpreendente: uma de suas populações viveu durante décadas em uma região usada para testes nucleares na China.

Em partes do noroeste da China, fontes de água doce são extremamente raras.
Em partes do noroeste da China, fontes de água doce são extremamente raras. - Imagem gerada por IA

Como esse camelo consegue beber água tão salgada?

Em partes do noroeste da China, fontes de água doce são extremamente raras. Para sobreviver, os camelos selvagens podem recorrer a fontes com concentração de sais superior à da água do mar. O mais intrigante é que o mecanismo fisiológico responsável por tamanha tolerância ainda não está completamente esclarecido.

A Wild Camel Protection Foundation relata que pesquisas ainda procuram entender como esses animais absorvem a água e eliminam tamanha quantidade de sal sem apresentar os efeitos esperados em outros mamíferos. A característica chama atenção porque nem mesmo o camelo-bactriano doméstico tolera condições salinas tão extremas.

Camelos selvagens sobrevivem com água salgada em condições ambientais extremas.
Camelos selvagens sobrevivem com água salgada em condições ambientais extremas. - Créditos: Imagem criada por IA.

O camelo selvagem é diferente do camelo doméstico?

Apesar da aparência semelhante e das duas corcovas, o Camelus ferus não é simplesmente um grupo de camelos domésticos que escapou para o deserto. Estudos genéticos encontraram uma separação profunda entre as linhagens selvagem e doméstica, reforçando que elas representam histórias evolutivas diferentes.

Pesquisas genômicas publicadas em revistas científicas como Nature Communications e Communications Biology identificaram uma divergência genética marcante. Outros trabalhos com DNA mitocondrial também encontraram linhagens distintas, tornando a preservação genética dos poucos animais selvagens restantes especialmente importante.

  • A espécie vive principalmente em regiões remotas da China e da Mongólia.
  • Algumas populações conseguem utilizar fontes de água extremamente salgadas.
  • Análises genéticas demonstram diferenças importantes em relação aos camelos-bactrianos domésticos.
  • A hibridização com animais domésticos pode comprometer características genéticas das populações selvagens.
  • Sua distribuição fragmentada torna o monitoramento e a conservação particularmente difíceis.

Como eles sobreviveram em uma área de testes nucleares?

Uma população do Gashun Gobi ocupa a região de Lop Nur, que durante décadas foi utilizada pela China para testes nucleares. Mais de 40 testes atmosféricos ocorreram naquela área, e camelos selvagens continuaram vivendo e se reproduzindo na região durante esse período.

Isso, porém, não significa que os animais sejam resistentes à radiação. Não há evidência suficiente para concluir que tenham desenvolvido imunidade aos seus efeitos. Uma explicação considerada importante é que o isolamento da zona militar reduziu temporariamente a presença humana, a caça e outras formas de perturbação.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Richard Rasmussen falando sobre os camelos e sua incrível capacidade de viver quase sem água.

Por que é tão difícil saber quantos ainda existem?

As estimativas apontam para uma população global muito pequena, distribuída por enormes extensões desérticas da China e da Mongólia. Como os animais percorrem grandes distâncias em busca de água e alimento, levantamentos convencionais encontram dificuldades para produzir contagens precisas e comparáveis.

Na Mongólia, pesquisadores chegaram a instalar 180 câmeras de monitoramento na Área de Proteção Especial A do Grande Gobi em um projeto iniciado em 2019. As imagens permitiram estudar presença, deslocamento e distribuição dos animais, oferecendo informações importantes para melhorar as estratégias de conservação.

O maior perigo agora pode estar fora do deserto

Sobreviver à falta de água doce, às temperaturas extremas e a décadas em uma antiga zona nuclear não tornou o camelo selvagem invulnerável. Caça, mineração ilegal, perda e fragmentação de habitat, mudanças ambientais e cruzamentos com camelos domésticos continuam colocando pressão sobre populações já reduzidas.

Programas na China e na Mongólia protegem áreas de habitat, monitoram a diversidade genética e mantêm iniciativas de reprodução. Conhecer esse animal é também perceber o quanto ainda pode ser perdido: uma adaptação capaz de desafiar os limites conhecidos dos mamíferos depende agora de ações de conservação para continuar existindo.