Este animal consegue desligar metade do cérebro para dormir enquanto a outra permanece acordada e vigilante
O chamado sono uni-hemisférico permite que golfinhos descansem sem perder completamente a capacidade de respirar, nadar e observar o oceano.
Um golfinho pode descansar sem desligar completamente do mundo ao redor. Enquanto um lado do cérebro entra em sono de ondas lentas, o outro permanece mais ativo, ajudando o animal a continuar respirando, nadando e percebendo o ambiente. Esse fenômeno, conhecido como sono uni-hemisférico, é uma das adaptações mais curiosas encontradas entre mamíferos marinhos e também aparece em diversas aves.

Como um golfinho dorme com metade do cérebro?
Durante o chamado sono de ondas lentas uni-hemisférico, um hemisfério cerebral apresenta padrões relacionados ao sono enquanto o outro permanece em um estado semelhante à vigília. Depois de algum tempo, os lados podem alternar suas funções, permitindo que diferentes regiões do cérebro tenham períodos de descanso.
Essa diferença pode ser observada por meio da atividade elétrica cerebral. O fenômeno é bem diferente do sono humano comum, no qual os dois hemisférios normalmente passam juntos pelos principais estágios. Nos cetáceos, essa estratégia permite combinar uma necessidade fundamental, dormir, com exigências permanentes da vida na água.

Por que o golfinho não pode simplesmente apagar?
Golfinhos precisam subir periodicamente à superfície para respirar. O sono uni-hemisférico permite continuar realizando movimentos e controlar comportamentos necessários para alcançar o ar enquanto parte do cérebro descansa. Pesquisas também relacionam essa adaptação à manutenção da vigilância e da posição do animal no grupo.
Esse sistema produz algumas situações que parecem impossíveis para quem está acostumado ao sono humano:
- Um hemisfério cerebral pode descansar enquanto o outro permanece mais desperto.
- O animal consegue continuar subindo à superfície para respirar durante períodos de descanso.
- Um olho pode permanecer aberto enquanto o outro fica fechado.
- O lado mais desperto pode ajudar o golfinho a acompanhar outros integrantes do grupo.
Por que alguns golfinhos dormem com um olho aberto?
O olho aberto está relacionado ao hemisfério que permanece mais ativo, permitindo algum monitoramento visual do ambiente. A NOAA explica que cetáceos podem entrar nesse estado mantendo justamente um dos olhos aberto, uma característica que tornou popular a expressão de que esses animais conseguem literalmente dormir sem deixar de observar ao redor.
Estudos sobre diferentes espécies indicam que essa vigilância pode ajudar tanto na percepção do ambiente quanto na manutenção da coesão do grupo. Isso mostra que dormir, para um golfinho, não significa necessariamente interromper completamente atividades como nadar lentamente, acompanhar companheiros e retornar à superfície.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube ecovia explicando como funciona o cérebro dos golfinhos no momento de tirar uma soneca.
Golfinhos são os únicos animais capazes disso?
Não. Embora sejam os exemplos mais famosos, pesquisas registram sono uni-hemisférico em outros cetáceos, além de animais como leões-marinhos, focas-orelhudas e peixes-boi. Entre mamíferos, essa capacidade está fortemente associada a espécies aquáticas, segundo revisões científicas sobre a evolução desse tipo extraordinário de sono.
Nas aves, o fenômeno é ainda mais disseminado. Um estudo publicado na Nature Communications demonstrou que fragatas-grandes conseguem dormir durante o voo e registrar sono de um único hemisfério enquanto permanecem no ar. Em determinadas situações, o olho ligado ao hemisfério acordado permanece aberto e voltado para possíveis ameaças.
O que esse sono revela sobre a evolução?
O sono uni-hemisférico mostra como uma necessidade aparentemente incompatível com a sobrevivência pode ser adaptada a ambientes extremos. Para um animal que precisa respirar na superfície ou permanecer atento a predadores, perder completamente a vigilância poderia ser arriscado. A evolução encontrou uma solução incomum: dividir temporariamente o cérebro entre descanso e atividade.
Da próxima vez que imaginar um golfinho dormindo tranquilamente no oceano, lembre-se de que a cena é muito mais extraordinária do que parece. Enquanto metade do cérebro descansa, a outra pode continuar trabalhando para manter o animal conectado ao ambiente. Conhecer adaptações assim é perceber até onde a natureza consegue transformar algo tão comum quanto dormir em uma sofisticada estratégia de sobrevivência.