Este passarinho guarda ratos, lagartos e insetos espetados em espinhos como se montasse uma despensa ao ar livre
Pequeno e discreto, o picanço usa espinhos e cercas para imobilizar, rasgar e até guardar presas para comer depois.
À primeira vista, um picanço pode passar por um passarinho comum pousado em um galho. A impressão muda quando se olha ao redor: insetos, pequenos lagartos e até roedores podem aparecer presos em espinhos ou pontas de arame, como se a ave tivesse montado uma despensa ao ar livre antes de voltar para comer.

Por que um pássaro pequeno empala as próprias presas?
Os picanços pertencem à família Laniidae e caçam muito além do que o tamanho delicado sugere. Insetos grandes formam parte importante da dieta, mas algumas espécies também capturam pequenos vertebrados. Depois do ataque, a ave pode carregar a presa até um espinho, galho pontudo ou cerca de arame e fixá-la ali com movimentos precisos.
Esse comportamento resolve uma limitação anatômica. Diferentemente de falcões e gaviões, picanços não têm pés tão poderosos para segurar uma presa enquanto arrancam pedaços. Ao prendê-la numa ponta rígida, conseguem criar resistência suficiente para rasgar, manipular e consumir o alimento usando principalmente o bico.

A presa espetada vira comida para mais tarde?
Sim, e essa é uma das funções mais curiosas do empalamento. Estudos comportamentais descrevem os espinhos como pontos de processamento e também de armazenamento. Uma presa capturada quando há abundância pode permanecer ali e ser consumida depois, criando uma reserva visível num território que a ave conhece bem.
O estoque não precisa durar semanas para ser útil. Guardar alimento por algumas horas ou dias já permite aproveitar uma oportunidade de caça e voltar quando a fome apertar. Em algumas espécies, pesquisadores também discutem funções ligadas à exibição territorial e ao cortejo, embora o papel exato varie conforme espécie, estação e contexto.
Os filhotes já nascem sabendo fazer isso?
Não completamente. Um estudo de Reuven Yosef e Berry Pinshow acompanhou o desenvolvimento do comportamento e mostrou que jovens picanços refinam a técnica durante semanas. Antes de dominar presas de verdade, eles podem praticar movimentos de fixação e manipulação com objetos muito mais simples encontrados no ambiente.
A habilidade, portanto, combina predisposição e experiência. O movimento vai ficando mais eficiente conforme a ave aprende onde pressionar, como equilibrar o corpo e que tipo de suporte realmente segura o objeto. A sequência observada pelos pesquisadores ajuda a desmontar a ideia de que todo comportamento aparentemente elaborado surge pronto no primeiro dia:
- Jovens começam manipulando objetos leves e materiais do ambiente antes de executar empalamentos eficientes.
- A prática ajuda a coordenar bico, corpo e posição da presa contra uma superfície pontuda.
- Ao dominar a técnica, o picanço consegue rasgar alimentos que seriam difíceis de segurar apenas com as patas.
- O mesmo ponto de empalamento pode funcionar como bancada de corte e como pequena reserva de comida.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Natureza Curiosa que fala sobre o comportamento de caça e empalamento dos picanços:
https://www.youtube.com/watch?v=j5dbA3Si4TA
Que tipo de animal pode acabar nessa despensa?
A lista depende da espécie e do ambiente. Besouros, gafanhotos e outros artrópodes são comuns, mas também há registros de pequenos répteis, anfíbios, aves e mamíferos. O que parece um cenário macabro para quem encontra uma cerca cheia de presas é, do ponto de vista do picanço, uma extensão funcional de seu corpo.
A força do comportamento está justamente nisso: a ave transforma uma característica da paisagem em ferramenta. Espinhos de arbustos e pontas de arame assumem o papel que garras mais robustas exerceriam em outros predadores, mostrando como soluções diferentes podem levar ao mesmo objetivo de imobilizar e processar alimento.
O que essa ave ensina sobre ferramentas sem precisar fabricar nenhuma?
O picanço não constrói uma faca nem carrega um utensílio, mas reconhece estruturas capazes de melhorar uma tarefa. Essa relação entre anatomia, ambiente e aprendizagem é o que torna o comportamento tão interessante para pesquisadores: uma limitação nos pés é compensada por uma estratégia repetida, treinada e ajustada ao lugar onde a ave vive.
Da próxima vez que um pássaro discreto estiver parado perto de uma cerca, vale observar também os galhos ao redor. A parte mais surpreendente do picanço pode não estar no animal, mas na pequena despensa que ele deixa montada, com presas que revelam uma técnica muito mais sofisticada do que sua aparência sugere.