Estrela-do-mar parecida com personagem de desenho atrai quatro milhões de espectadores, pesquisadores mergulham em cânion argentino e identificam 57 espécies até então desconhecidas
Expedição submarina na Argentina identificou 57 organismos potencialmente novos para a ciência após transmissão acompanhada por milhões.
Uma estrela-do-mar alaranjada, parecida com Patrick de Bob Esponja, apareceu nas imagens de um mergulho científico na Argentina e conquistou a internet. Aproximadamente quatro milhões de pessoas acompanharam as transmissões. Meses depois, o trabalho menos visível produziu outra surpresa: taxonomistas reconheceram 57 organismos provavelmente novos para a ciência nas amostras. A estrela famosa não estava nessa lista. O que aconteceu entre uma cena viral e a descoberta real no fundo do mar?

Onde ocorreu a expedição?
Em julho e agosto de 2025, o navio Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, investigou o cânion submarino de Mar del Plata. Veículos operados remotamente registraram imagens e recolheram exemplares em profundidades difíceis de alcançar por mergulhadores. A transmissão online permitiu que o público acompanhasse parte da exploração enquanto os cientistas ainda observavam os organismos pela primeira vez.
As imagens chamaram atenção por cores e formas inesperadas. A estrela-do-mar alaranjada ganhou comparação com personagem conhecido, facilitando que milhões de pessoas se interessassem pela pesquisa. A semelhança é visual, sem significado taxonômico. Organismos que parecem comuns numa tela podem ser cientificamente novos; outros, chamativos, pertencem a espécies já descritas.

Por que a estrela ficou famosa?
Sua forma arredondada e cor viva evocavam Patrick, personagem do desenho Bob Esponja. A circulação do vídeo transformou um momento de observação em fenômeno nas redes. Segundo o Ocean Census, cerca de quatro milhões acompanharam as transmissões da expedição. Esse alcance ajudou a mostrar o trabalho de exploração, mas a popularidade não determina o valor científico de um exemplar.
A aparência surpreendente de animais pouco conhecidos também costuma atrair curiosidade fora do mar. Aqui, porém, o ponto decisivo veio depois: comparar amostras com coleções e literatura. Uma fotografia viral não substitui anatomia detalhada nem análise por especialistas.
Como surgiram 57 candidatos a novas espécies?
Em julho de 2026, 20 taxonomistas da América Latina e da Europa reuniram-se em Buenos Aires por duas semanas para estudar o material recolhido. Identificaram 57 organismos provavelmente novos para a ciência e cinco possíveis novos gêneros. A contagem incluiu 22 equinodermos, 20 copépodes, 14 corais e penas-do-mar e um molusco escafópode. São categorias provisórias enquanto descrições formais avançam.
O balanço divulgado pelo Ocean Census separa a identificação preliminar da publicação taxonômica. Comparar um espécime com espécies conhecidas, documentar caracteres e atribuir nome são etapas que levam tempo. Dizer “57 espécies descobertas” é uma forma resumida de comunicar o achado, mas não implica que todos os nomes científicos já estejam publicados.
Que animais estavam nas amostras?
Echinodermos como estrelas e pepinos-do-mar dividiram espaço com pequenos crustáceos e corais. Um pepino-do-mar encontrado a 2.577 metros recebeu o apelido Loki por estruturas que lembravam chifres. O nome informal não é uma descrição científica. Ele ajuda o público a visualizar uma criatura de grande profundidade, enquanto especialistas verificam suas características reais.
Copépodes podem ser minúsculos e pouco fotogênicos, mas vinte candidatos a novas espécies nesse grupo mostram que a diversidade não se restringe aos animais grandes. Os cinco novos gêneros sugerem diferenças ainda mais profundas na classificação, sujeitas a confirmação. Cada amostra guarda pistas sobre as relações ecológicas que compõem o cânion submarino.
Por que a estrela não era inédita?
A avaliação dos cientistas indicou que ela não integrava as 57 espécies provavelmente novas. O desenho conhecido elevou a visibilidade da missão, mas a novidade científica estava também em organismos discretos. Isso não reduz a importância da estrela: sua imagem fez pessoas olharem para um ambiente que raramente aparece em transmissões públicas.
O contraste ensina a separar impacto visual de conhecimento acumulado. Uma descoberta depende de comparação rigorosa com espécies descritas anteriormente. A fama pode acontecer em segundos; uma identificação confiável exige semanas, meses ou anos de trabalho. As duas escalas de tempo estiveram presentes na mesma expedição.
O que vem depois da descoberta?
Os especialistas precisam descrever, comparar e publicar cada táxon confirmado, além de guardar exemplares de referência em coleções. Dados ambientais ajudam a entender onde os organismos vivem e quais condições precisam. A proteção de cânions profundos demanda conhecimento que essas amostras começam a fornecer, ainda que uma campanha não revele todos os habitantes da região.
A estrela-do-mar foi a porta de entrada para uma história maior. A expedição de 2025 ofereceu imagens e amostras; o encontro de taxonomistas em 2026 abriu 57 pistas novas. O desfecho científico ainda está em andamento, e isso é parte da aventura: descobrir um organismo também significa trabalhar para compreender onde ele cabe na vida marinha. Mesmo com 57 candidatos, o trabalho permanece aberto. A lista de candidatos ainda pode mudar após revisão de especialistas independentes e comparação com acervos de outras regiões. Algumas amostras podem representar espécies já conhecidas; outras podem revelar diferenças ainda não notadas. Essa abertura à correção fortalece o resultado e exige que cada identificação seja documentada em coleções acessíveis a pesquisadores de outras instituições.