Fazendeiros abandonaram 5 bovinos em uma ilha em 1871 e quase 140 anos depois seu DNA contou uma história improvável

Amostras preservadas revelaram a mistura genética e as adaptações de um rebanho que permaneceu isolado por quase 140 anos.

Cinco bovinos levados a uma ilha subantártica em 1871 deram origem a uma população que, décadas depois, chegou a cerca de 2 mil animais. Isolado por quase 140 anos na Ilha de Amsterdã, o rebanho parecia condenado pela baixa diversidade genética. Mas uma análise de DNA publicada em 2024 revelou uma história evolutiva muito mais surpreendente.

Os cientistas estudaram amostras de 18 animais coletadas em 1992 e 2006.
Os cientistas estudaram amostras de 18 animais coletadas em 1992 e 2006. - Imagem gerada por IA

Como apenas cinco animais criaram um rebanho tão grande?

Registros históricos analisados pelos pesquisadores indicam que cinco bovinos foram introduzidos na Ilha de Amsterdã, no sul do Oceano Índico, por um fazendeiro francês vindo da Ilha da Reunião. Abandonados em 1871, eles passaram a viver e se reproduzir sem manejo humano, dando origem a uma população totalmente feral.

Segundo o estudo publicado na revista Molecular Biology and Evolution, o rebanho alcançou picos próximos de 2 mil animais em 1952 e novamente em 1988. O caso chamou atenção porque populações iniciadas por tão poucos indivíduos normalmente enfrentam altos riscos relacionados à consanguinidade e à perda de diversidade genética.

Bovinos isolados em ilha remota sobreviveram graças à alta diversidade.
Bovinos isolados em ilha remota sobreviveram graças à alta diversidade. - Créditos: Imagem criada por IA.

O que o DNA revelou sobre esses bovinos?

Os cientistas estudaram amostras de 18 animais coletadas em 1992 e 2006. A reconstrução genética mostrou que os fundadores não pertenciam a uma única linhagem. Eles carregavam uma combinação de ancestralidade taurina europeia e zebuína do Oceano Índico, o que aumentava a variedade genética disponível desde o início.

A equipe liderada por Mathieu Gautier também encontrou sinais de um gargalo populacional intenso, mas relativamente curto. Apesar dos elevados níveis de endogamia, a redução da diversidade genética foi considerada moderada, e os pesquisadores não detectaram uma eliminação significativa das variantes altamente prejudiciais, contrariando uma possível explicação para o sucesso do rebanho.

Quais pistas explicam a sobrevivência durante tantas gerações?

Uma das chaves parece estar na origem dos próprios fundadores. O estudo concluiu que parte importante das características necessárias à sobrevivência provavelmente já estava presente antes da chegada à ilha. Em outras palavras, os animais não precisaram desenvolver rapidamente todas as adaptações depois do isolamento.

  • A população começou com apenas cinco bovinos introduzidos em 1871.
  • O rebanho alcançou aproximadamente 2 mil animais em momentos do século XX.
  • O DNA revelou ancestralidade combinando bovinos taurinos europeus e zebus do Oceano Índico.
  • Genes ligados ao sistema nervoso apareceram entre regiões que apresentavam sinais de seleção durante a vida selvagem.

Os autores também identificaram regiões genômicas associadas principalmente à função e ao desenvolvimento do sistema nervoso. Eles interpretam esses sinais com cautela, mas sugerem que mudanças comportamentais podem ter participado da feralização, processo pelo qual animais domesticados passam a formar populações autossustentáveis na natureza.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube DESCOBRINDO ANIMAIS mostrando o que aconteceu com as vacas no tempo em que ficaram isoladas na ilha.

Esses bovinos realmente ficaram menores por viver em uma ilha?

Um estudo de 2017 publicado na Scientific Reports havia interpretado o tamanho reduzido dos bovinos como um possível exemplo de nanismo insular rápido. A hipótese combinava medições corporais com a ideia de que grandes mamíferos isolados em ilhas podem sofrer mudanças acentuadas de tamanho ao longo das gerações.

A análise genômica de 2024, porém, apresentou outra explicação. Os bovinos eram geneticamente próximos de populações naturalmente menores, incluindo linhagens relacionadas ao Jersey e a zebus do Oceano Índico. Os autores não encontraram evidências fortes de seleção favorecendo baixa estatura, sugerindo que os ancestrais provavelmente já eram pequenos.

Por que esse extraordinário rebanho desapareceu?

O sucesso dos bovinos trouxe consequências para a vegetação e para espécies nativas da Ilha de Amsterdã. Medidas de controle começaram no fim do século XX e, como parte dos esforços de restauração ambiental, a população foi finalmente erradicada em 2010. A conservação local também envolveu iniciativas para recuperar plantas nativas afetadas pelos animais introduzidos.

O rebanho desapareceu, mas seu DNA permaneceu preservado em amostras coletadas anos antes. É esse material que continua contando sua história. Estudar agora como cinco animais originaram uma população tão duradoura ajuda cientistas a compreender melhor consanguinidade, adaptação e feralização, mostrando como experiências evolutivas inesperadas podem ficar escondidas até mesmo em uma ilha remota.