Fósseis de 850 mil anos revelam que adultos e crianças eram processados como animais em uma caverna espanhola
Há 850 mil anos, uma caverna no norte da Espanha foi palco de um comportamento que ainda intriga a ciência.
Há 850 mil anos, uma caverna no norte da Espanha foi palco de um comportamento que ainda intriga a ciência. Fósseis encontrados em Gran Dolina indicam que o Homo antecessor processava corpos de outros indivíduos como fazia com animais, e novas descobertas mostram que adultos e crianças estavam entre as vítimas.

O que foi encontrado na caverna Gran Dolina?
Durante a temporada de escavações de 2026, pesquisadores recuperaram 24 novos fósseis humanos na camada TD6.2 do sítio de Gran Dolina, integrante do complexo arqueológico de Atapuerca. O conjunto inclui dentes e fragmentos do crânio, da coluna, dos braços e das pernas de diferentes indivíduos.
Alguns ossos apresentam marcas produzidas por ferramentas de pedra, interpretadas como sinais de retirada de tecidos e processamento dos corpos. A descoberta elevou para pelo menos 13 o número de indivíduos identificados nessa camada, sendo aproximadamente metade deles adultos.

Como os cientistas confirmaram o canibalismo?
A conclusão não depende de uma única marca. Os arqueólogos compararam os fósseis humanos com ossos de veados, cavalos e outros animais encontrados no mesmo contexto. Ambos exibem padrões semelhantes de cortes, fraturas e aproveitamento, indicando que foram processados com técnicas parecidas.
Um estudo publicado em 1999 no Journal of Human Evolution apresentou as primeiras evidências do comportamento em Gran Dolina. Pesquisas posteriores também identificaram possíveis marcas de mordidas humanas, consideradas um forte indício de que partes dos corpos foram efetivamente consumidas.
Por que a presença de adultos surpreendeu os pesquisadores?
As descobertas anteriores eram formadas principalmente por restos de bebês, crianças e adolescentes. Um estudo publicado em 2010 na revista Current Anthropology sugeriu que indivíduos jovens poderiam ter sido escolhidos por oferecerem menor risco durante confrontos entre grupos rivais.
- Adultos também apresentam marcas de processamento nos novos fósseis.
- Crianças continuam representadas entre os indivíduos identificados.
- Ferramentas de pedra correspondem aos tipos de cortes observados.
- Ossos de animais mostram técnicas semelhantes de aproveitamento.
A inclusão de mais adultos enfraquece a ideia de que apenas os mais vulneráveis eram selecionados. Segundo a antropóloga Palmira Saladié, do IPHES, os novos vestígios demonstram que a prática abrangia diferentes idades e exigirá uma revisão das hipóteses sobre a escolha das vítimas.

Por que o Homo antecessor fazia isso?
Uma pesquisa publicada em 2012 no Journal of Human Evolution propôs que grupos rivais poderiam ter sido atacados e consumidos como parte de uma estratégia territorial. Já o trabalho de 2010 classificou o comportamento como nutricional e repetido, em vez de uma reação isolada provocada apenas pela fome.
Essas interpretações ainda são debatidas. Os pesquisadores não sabem se os episódios envolveram conflito, competição por recursos, tradição cultural ou uma combinação desses fatores. Também será necessário determinar se os fósseis pertencem a um único acontecimento ou a diferentes episódios separados pelo tempo.
Os novos fósseis podem mudar essa história
As análises em andamento deverão estimar a idade dos indivíduos, identificar diferenças no processamento de adultos e crianças e reconstruir a duração dos episódios. O conjunto de ferramentas de sílex, quartzito e arenito também poderá revelar como os habitantes da caverna obtinham e utilizavam seus recursos.
Gran Dolina mostra que o passado humano foi mais complexo do que explicações rápidas conseguem transmitir. Cada novo fragmento pode alterar hipóteses construídas durante décadas. Acompanhar essas pesquisas é essencial para entender não apenas quem eram nossos parentes antigos, mas como sobreviviam e organizavam suas relações.