Fóssil de criatura marinha de 150 milhões de anos aparece 9.000 km longe de onde cientistas acreditavam que ela viveu
Espécie identificada em coleções de museus amplia a diversidade conhecida dos ictiossauros e conecta antigos mares da Alemanha e do México.
Um pequeno esqueleto guardado em um museu alemão acabou desmontando uma ideia mantida por mais de um século. O fóssil, com cerca de 150 milhões de anos, pertence a uma espécie de ictiossauro até então desconhecida na região e ligada a parentes encontrados a quase 9.000 quilômetros dali, no México.

O que os cientistas encontraram na Alemanha?
A nova espécie recebeu o nome de Jabalisaurus tethyensis e foi identificada em fósseis provenientes do famoso calcário Plattenkalk, no sul da Alemanha. A região já revelou exemplares extraordinários, entre eles o Archaeopteryx, fundamental para os estudos sobre a transição evolutiva entre dinossauros e aves.
Durante mais de cem anos, pesquisadores acreditaram que apenas o Aegirosaurus leptospondylus representava os ictiossauros daqueles depósitos. A identificação do novo animal, portanto, dobra o número de espécies conhecidas no local e indica que a diversidade marinha do Jurássico Superior era maior do que se imaginava.

Por que o fóssil ficou escondido por tanto tempo?
A equipe liderada pela paleontóloga Dra. Erin Maxwell, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, não precisou escavar um novo sítio. Os fósseis já estavam armazenados em coleções de museus e haviam sido classificados anteriormente como pertencentes ao gênero Aegirosaurus.
O principal exemplar é um pequeno esqueleto imaturo da Coleção Estadual Bávara de Paleontologia e Geologia, em Munique. Outros dois fósseis foram relacionados à espécie, incluindo um preservado no Museu Jura de Eichstätt que mantém até mesmo o contorno dos tecidos moles do animal.
Como era esse réptil marinho?
Segundo o estudo publicado na revista científica Palaeontologia Electronica, o Jabalisaurus tethyensis era um ictiossauro oftalmosaurídeo de porte médio. O animal teria vivido nas águas quentes do antigo Oceano Tétis durante o Jurássico Superior, aproximadamente 150 milhões de anos atrás.
- Media aproximadamente entre 2 e 2,9 metros de comprimento.
- Possuía um crânio relativamente alto e um focinho de aparência delicada.
- Apresentava dentes com cristas finas, associados provavelmente à captura de pequenos peixes ósseos.
- Tinha pele aparentemente lisa, característica observada também em outros ictiossauros de sua linhagem.
Esses detalhes anatômicos permitiram distinguir o animal dos fósseis que haviam sido identificados anteriormente. Para os pesquisadores, a descoberta reforça a possibilidade de que coleções antigas ainda escondam espécies desconhecidas, não porque os exemplares estejam perdidos, mas porque precisam ser reexaminados com novas comparações.

Por que a ligação com o México surpreendeu os pesquisadores?
Antes dessa análise, o gênero Jabalisaurus era conhecido apenas na região do antigo Golfo do México. Encontrar um parente próximo na Baviera revela uma conexão biogeográfica inesperada entre áreas separadas atualmente por quase 9.000 quilômetros, mas que faziam parte de sistemas marinhos interligados no passado.
No artigo, Maxwell e seus colegas observam que a fauna de ictiossauros do proto-Golfo do México havia sido considerada altamente endêmica, apesar da conectividade dos mares do Jurássico Superior. Os novos fósseis sugerem, ao contrário, que esses animais ocupavam uma faixa muito mais ampla entre o noroeste do Tétis e o proto-Caribe.
O que essa descoberta muda sobre os mares jurássicos?
O estudo questiona a antiga visão de que os ictiossauros do Jurássico apresentavam diversidade limitada. Os autores lembram que esses répteis marinhos surgiram no Triássico Inferior e sobreviveram até o início do Cretáceo Superior, passando por diferentes fases de adaptação, distribuição e especialização ecológica.
Um fóssil esquecido em uma gaveta de museu pode, portanto, redesenhar mapas de oceanos desaparecidos há milhões de anos. Revisitar coleções antigas tornou-se tão urgente quanto buscar novos fósseis, porque a próxima descoberta capaz de mudar uma história evolutiva inteira talvez já tenha sido encontrada e esteja apenas esperando um novo olhar.