Frasco de 4 mil anos continha pigmento vermelho tão parecido com batom que surpreendeu os pesquisadores
Frasco de quase 4 mil anos encontrado no Irã guardava pigmento vermelho, ceras e compostos vegetais interpretados como possível pintura labial.
Um pequeno frasco de pedra verde recuperado na região de Jiroft, no sudeste do Irã, ainda guardava um pó vermelho escuro. Quando pesquisadores analisaram minerais e compostos orgânicos, encontraram uma receita surpreendentemente familiar: pigmento vermelho à base de hematita misturado a ceras e substâncias vegetais, combinação interpretada como possível pintura labial da Idade do Bronze.

Que objeto guardava o pigmento vermelho?
O recipiente é um frasco estreito e cilíndrico feito de clorita, com incisões decorativas e formato incomum em relação a outros objetos cosméticos conhecidos da região. Ele foi recuperado entre artefatos saqueados e posteriormente apreendidos em Jiroft, o que limita parte do contexto arqueológico original.
Essa limitação é importante. Sem saber exatamente de qual sepultura, edifício ou depósito o frasco saiu, pesquisadores perdem informações sobre quem o possuía e em que situação era usado. Ainda assim, o conteúdo permaneceu no interior e pôde ser submetido a uma bateria de análises físico-químicas.

Como os cientistas descobriram a composição da mistura?
A equipe usou difração de raios X, microscopia eletrônica com análise de elementos e cromatografia acoplada à espectrometria de massas. A cor vinha principalmente de hematita finamente moída, acompanhada por minerais escuros como manganita e braunita, além de traços de outros compostos.
Nas frações orgânicas apareceram ceras vegetais e outras substâncias que poderiam funcionar como base ou aglutinante. A combinação lembra o princípio de cosméticos modernos, nos quais um pigmento precisa ser disperso numa matriz capaz de aderir à pele. Isso não significa que a fórmula seja idêntica a um batom atual.
Por que os pesquisadores pensam especificamente em pintura para os lábios?
A cor vermelho intenso é compatível com cosméticos labiais, e o frasco é estreito o suficiente para ser segurado junto a um espelho enquanto a outra mão utiliza um pincel ou aplicador. Representações antigas de outras regiões mostram justamente pessoas aplicando pigmento nos lábios com instrumentos finos.
Os indícios que sustentam a interpretação são vários, mas nenhum isoladamente seria definitivo:
- A hematita foi o principal mineral responsável pela cor vermelha intensa.
- Manganita e braunita ajudavam a escurecer ou modular o tom.
- Ceras e compostos vegetais formavam a parte orgânica da preparação.
- O formato do frasco favorece a hipótese de uso com pincel ou outro aplicador fino.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube INCRÍVEL que percorre a história do batom desde as civilizações antigas até a maquiagem moderna:
O pigmento era aplicado como um batom em bastão?
Provavelmente não. O conteúdo encontrado era um pó ou pasta ressecada dentro de um recipiente. A forma do frasco sugere retirar pequena quantidade com um instrumento, não passar o próprio recipiente diretamente sobre os lábios. Por isso, “pintura labial” ou “possível batom” são termos mais cuidadosos do que imaginar um bastão giratório moderno.
O estudo também discute a presença de partículas que podem ter produzido brilho e materiais escuros usados para ajustar o tom. Essa elaboração indica conhecimento de mistura e aparência, mas ainda não permite reconstruir a frequência de uso, o gênero de quem utilizava o cosmético ou se havia uma função ritual.
O que um cosmético pode revelar sobre a Idade do Bronze?
Objetos de beleza registram escolhas sobre identidade, status e apresentação do corpo que armas e ferramentas não mostram. A preparação exigia obter minerais, moê-los na granulometria desejada, combinar componentes e armazenar a mistura num frasco trabalhado, sinal de uma cadeia especializada de produção.
A datação por radiocarbono do material orgânico coloca a preparação no início do segundo milênio a.C. Quase quatro mil anos depois, o tom vermelho ainda permite reconhecer um gesto muito humano: escolher uma cor, preparar uma fórmula e mudar deliberadamente a aparência do próprio rosto.