Gatas que amamentam cachorros e cães que protegem gatinhos: por que animais adotam outras espécies?
Uma gata amamentando cachorrinhos ou um cão protegendo filhotes de gato parece uma cena criada para emocionar a internet.
Uma gata amamentando cachorrinhos ou um cão protegendo filhotes de gato parece uma cena criada para emocionar a internet. No entanto, a adoção entre espécies também revela mecanismos profundos do comportamento animal, como instinto parental, resposta a sinais infantis, convivência social e capacidade de adaptar cuidados a um filhote completamente diferente.

O que leva um animal a cuidar de outra espécie?
Na etologia, o cuidado oferecido a filhotes que não são descendentes diretos é chamado de cuidado aloparental. Em mamíferos, cheiros, vocalizações, movimentos frágeis e pedidos de alimento podem ativar respostas de proteção. Esse impulso tende a ser mais forte em fêmeas que deram à luz recentemente ou estão amamentando.
Uma revisão publicada na revista Hormones and Behavior explica que hormônios como prolactina e ocitocina participam da motivação parental, do reconhecimento dos filhotes e da amamentação. A exposição repetida aos recém-nascidos e experiências anteriores também podem estimular cuidados maternos em animais que não passaram por uma gestação recente.

Gatas realmente podem criar filhotes de cachorro?
Em 2024, o abrigo Wilbarger Humane Society, no Texas, recebeu dois cachorrinhos órfãos chamados Yin e Yang. A equipe apresentou os filhotes a Julie Newmar, uma gata que amamentava sua própria cria. Ela aceitou os recém-chegados, permitiu que mamassem e passou a limpá-los e protegê-los como parte da mesma ninhada.
O caso funcionou porque os cachorrinhos ainda eram muito jovens e dependiam de calor, leite e estímulos para sobreviver. Para a gata, o tamanho reduzido, os sons e o comportamento de procura pelo ventre provavelmente foram mais importantes que a espécie. Ainda assim, adoções desse tipo exigem acompanhamento veterinário e supervisão constante.
Cães também conseguem adotar gatos?
Cães sociáveis podem vigiar, aquecer, limpar e brincar delicadamente com gatinhos órfãos. Um caso conhecido envolveu Chapo, um cão resgatado em Houston que passou a conviver com sucessivas ninhadas temporárias de gatos. Segundo sua tutora, o contato com os filhotes aumentou sua confiança e revelou um comportamento cuidadoso e protetor.
Alguns sinais ajudam a diferenciar cuidado verdadeiro de curiosidade ou comportamento de caça:
- Corpo relaxado durante a aproximação;
- Lambidas suaves e permanência ao lado do filhote;
- Respostas calmas aos miados e movimentos rápidos;
- Ausência de perseguição, rigidez ou fixação intensa;
- Respeito quando o filhote tenta se afastar.
Estudos sobre a convivência entre cães e gatos mostram que relações amistosas são possíveis, especialmente quando as apresentações são graduais e o cão interage de maneira calma. Porém, tamanho, histórico, impulso de perseguição e personalidade individual precisam ser considerados antes de qualquer aproximação.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Você Sabia? mostrando 10 animais que adotaram outras espécies de animais.
Esse comportamento também acontece na natureza?
Em 2018, pesquisadores observaram uma leoa no Parque Nacional de Gir, na Índia, amamentando e protegendo um filhote de leopardo junto aos próprios filhotes. O pequeno também se alimentava das presas capturadas por ela. O caso surpreendeu porque leões e leopardos competem por recursos e normalmente não formam grupos familiares.
Outros episódios documentados incluem uma golfinho-nariz-de-garrafa que cuidou por anos de um filhote de outra espécie de cetáceo e macacos-prego que acolheram um pequeno sagui. Esses registros mostram que a adoção interespecífica existe na natureza, mas permanece rara e nem sempre oferece uma vantagem evolutiva evidente ao adulto.
Adoção entre espécies é afeto ou apenas instinto?
A ciência evita interpretar esses casos exatamente como uma adoção humana. O comportamento pode resultar de hormônios, tolerância social, experiência, sinais emitidos pelo filhote e oportunidades criadas pelo ambiente. Isso não torna o vínculo menos real, mas mostra que diferentes mecanismos podem produzir proteção, proximidade e cuidado duradouro.
Cada história precisa ser observada sem romantizar riscos. Animais de espécies diferentes podem se ferir, transmitir doenças ou apresentar necessidades nutricionais incompatíveis. Quando o encontro é seguro e acompanhado por especialistas, porém, ele revela algo poderoso: a capacidade de cuidar pode ultrapassar parentesco, aparência e até as fronteiras entre espécies.