Golfinhos na Austrália Ocidental carregam esponjas do mar em seus bicos enquanto forrageiam pelo fundo do oceano, um comportamento raro de uso de ferramentas transmitido principalmente de mães para filhas, tornando-se uma das poucas culturas animais moldadas tão fortemente pelo gênero
A esponja funciona como uma ferramenta durante a procura por alimento.
Alguns golfinhos de Shark Bay, na Austrália Ocidental, desenvolveram uma técnica de caça que parece saída de uma oficina: eles encaixam esponjas marinhas sobre o rostro e vasculham o fundo do oceano em busca de peixes escondidos. O comportamento, chamado de sponging, é raro mesmo dentro dessa população e chama ainda mais atenção porque o conhecimento passa principalmente das mães para suas filhas.

Por que esses golfinhos colocam uma esponja no focinho?
A esponja funciona como uma ferramenta durante a procura por alimento. Com ela encaixada no rostro, o golfinho remexe sedimentos, cascalho e áreas do fundo onde pequenos peixes podem permanecer escondidos. A estrutura macia também ajuda a proteger uma região sensível do corpo enquanto o animal encosta repetidamente no substrato.
Essa estratégia permite explorar presas que não são tão fáceis de localizar somente pela ecolocalização. Alguns peixes encontrados nesse tipo de ambiente vivem junto ao fundo e não possuem bexiga natatória, estrutura cheia de ar que normalmente produz um eco mais evidente para os golfinhos. Remexer fisicamente o substrato pode fazê-los abandonar o esconderijo.
Como funciona a caça com esponjas no fundo do mar?
O processo envolve muito mais do que simplesmente encontrar uma esponja. O animal precisa escolher uma estrutura adequada, posicioná-la sobre o rostro, mergulhar e utilizá-la enquanto procura alimento. Durante uma sequência de forrageamento, os pesquisadores observam etapas bem definidas:
- o golfinho recolhe uma esponja marinha no fundo;
- encaixa o organismo sobre a extremidade do rostro;
- pressiona e movimenta a esponja contra o substrato;
- tenta desalojar peixes escondidos entre sedimentos e pedras;
- solta a ferramenta quando encontra a presa e precisa capturá-la.
A técnica também possui um custo inesperado. Modelagens acústicas indicam que a esponja modifica os sinais usados na ecolocalização, distorcendo parte dos cliques e ecos que chegam ao animal. O golfinho precisa, portanto, caçar enquanto compensa uma alteração no próprio sistema sensorial.
Por que a técnica passa principalmente de mães para filhas?
Estudos de longo prazo em Shark Bay indicam transmissão social vertical: os filhotes aprendem observando suas mães durante os anos em que permanecem próximos delas. Uma análise publicada em 2019 encontrou forte evidência de que o uso das esponjas se espalha dentro das linhagens maternas, em vez de simplesmente aparecer porque indivíduos vivem no mesmo habitat.
As filhas apresentam uma tendência maior de adotar a estratégia. Um estudo sobre os machos que também usam esponjas registrou que cerca de 91% das filhas de mães praticantes adotavam o comportamento, contra aproximadamente 50% dos filhos. Isso mostra que a tradição não é exclusivamente feminina, mas possui uma forte diferença ligada ao sexo dos descendentes.

O que torna esse comportamento uma cultura animal?
Os pesquisadores não usam o termo cultura apenas porque a técnica é incomum. O ponto central é que ela é aprendida socialmente e permanece ao longo das gerações. Estudos genéticos, ecológicos e comportamentais ajudaram a descartar uma explicação simples baseada apenas em herança genética ou disponibilidade de esponjas. Entre as características que sustentam essa interpretação estão:
- filhotes acompanham mães que já utilizam a ferramenta;
- nem todos os golfinhos que vivem na mesma região adotam a técnica;
- o comportamento permanece concentrado em determinadas linhagens;
- a aprendizagem exige anos de observação e prática;
- fêmeas apresentam uma probabilidade maior de manter a tradição.
Por isso, o sponging tornou-se um dos exemplos mais estudados de uso de ferramentas por cetáceos. A população continua socialmente conectada a outros golfinhos que nunca usam esponjas, mostrando que conviver no mesmo ambiente não é suficiente para fazer a técnica se espalhar por todos.
Uma tradição submarina preservada por gerações
Os golfinhos de Shark Bay mostram que uma estratégia alimentar pode seguir uma trajetória muito diferente dentro de uma única população. Enquanto alguns perseguem peixes sem qualquer objeto, outros carregam esponjas, remexem o fundo e dependem de uma habilidade aprendida durante anos de convivência com suas mães. A ferramenta modifica até a maneira como os animais recebem os ecos usados para perceber o ambiente.
A predominância entre fêmeas acrescenta uma camada rara a essa tradição. Como as filhas apresentam maior probabilidade de repetir o comportamento materno e posteriormente transmiti-lo aos próprios descendentes, determinadas linhagens mantêm uma técnica de forrageamento que outras famílias de Shark Bay não utilizam. Nesse caso, parentesco, aprendizagem social, sexo e alimentação se combinam para preservar uma das tradições mais peculiares já documentadas entre mamíferos marinhos.