Grãos microscópicos revelaram que marinheiros romanos reparavam o mesmo navio em diferentes pontos da costa mediterrânea

Durante 2.200 anos, minúsculos grãos de pólen permaneceram presos em uma camada escura no casco de um navio romano naufragado.

Durante 2.200 anos, minúsculos grãos de pólen permaneceram presos em uma camada escura no casco de um navio romano naufragado. Agora, essas partículas estão contando uma história que nenhum pergaminho preservou: onde a embarcação pode ter sido construída, por quais paisagens navegou e quantas vezes precisou ser reparada antes de desaparecer no Adriático.

Conhecido como Ilovik-Paržine 1, o navio mercante afundou por volta da metade do século II a.C. perto da ilha de Ilovik, na atual Croácia
Conhecido como Ilovik-Paržine 1, o navio mercante afundou por volta da metade do século II a.C. perto da ilha de Ilovik, na atual Croácia - Imagem gerada por IA

Um naufrágio virou diário de bordo

Conhecido como Ilovik-Paržine 1, o navio mercante afundou por volta da metade do século II a.C. perto da ilha de Ilovik, na atual Croácia. Descoberto em 2016 na baía de Paržine, o naufrágio ainda conserva partes importantes do casco, além de ânforas e toras que faziam parte de sua carga.

A embarcação provavelmente transportava produtos como vinho ou azeite entre portos do Mediterrâneo e do Adriático. Seu estado de conservação permitiu que pesquisadores franceses e croatas estudassem não apenas a madeira, mas também a massa usada pelos antigos trabalhadores para proteger o casco da água e de organismos marinhos.

Embarcação do século II a.C. preservou casco e carga no Adriático.
Embarcação do século II a.C. preservou casco e carga no Adriático. - L. Damelet, CNRS, CCJ

O pólen revelou paisagens antigas

Os grãos ficaram presos quando a substância protetora ainda estava quente e pegajosa. Cada amostra carregava vestígios das plantas existentes perto do local onde o material havia sido preparado ou aplicado, transformando uma simples camada impermeável em um retrato microscópico de diferentes regiões costeiras.

Foram identificados sinais de oliveiras, aveleiras, pinheiros, carvalhos, amieiros e freixos, além de árvores de áreas mais elevadas, como faias e abetos. A combinação aponta para paisagens da costa italiana e do nordeste do Adriático, permitindo acompanhar possíveis etapas da vida do navio.

Como os romanos protegiam seus navios?

Antes de enfrentar o mar, o casco recebia materiais capazes de preencher frestas e impedir a entrada de água. O estudo publicado na revista Frontiers in Materials analisou dez amostras e encontrou diferentes aplicações, revelando um cuidado constante para manter a embarcação funcionando durante viagens longas.

  • Resina de coníferas aquecida para produzir uma camada resistente;
  • Piche de pinheiro aplicado na maior parte do casco;
  • Cera de abelha adicionada em uma das misturas;
  • Ao menos quatro lotes associados a diferentes intervenções.

A mistura de piche e cera deixava o material mais flexível e fácil de espalhar. Uma preparação semelhante, chamada zopissa, foi mencionada séculos depois pelo escritor romano Plínio, o Velho, mostrando que esse conhecimento circulou por muito tempo entre construtores e marinheiros do Mediterrâneo.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Grands Sites archéologiques mostrando destroços do navio Ilovik-Paržine 1, ainda preservados.

O navio teria partido do sul da Itália

Estudos anteriores sobre as pedras usadas como lastro já indicavam uma ligação com Brundisium, atual Brindisi, importante porto do sul da Itália. Parte do pólen reforça essa origem, sugerindo que o primeiro revestimento pode ter sido aplicado perto de onde o navio foi construído ou preparado para navegar.

Outras amostras apresentam combinações diferentes, especialmente na proa. Para Armelle Charrié-Duhaut, autora principal do estudo, o resultado indica sucessivas manutenções em pontos distintos da rota. Em vez de voltar sempre ao mesmo estaleiro, a tripulação provavelmente fazia reparos onde encontrava materiais e trabalhadores disponíveis.

Uma camada esquecida recuperou toda uma viagem

Os pesquisadores ainda não conseguem desenhar no mapa cada parada da embarcação, mas já identificam uma vida marcada por travessias e consertos. O achado oferece uma rara prova material de que navios mercantes eram constantemente cuidados, adaptados e renovados enquanto conectavam portos, mercados e comunidades.

O Ilovik-Paržine 1 mostra que grandes histórias podem sobreviver em partículas quase invisíveis. Preservar naufrágios como esse é urgente, porque cada pedaço de madeira, camada de piche ou grão de pólen pode revelar uma rota perdida e devolver movimento a um navio que o mar tentou silenciar por mais de dois milênios.