Há 176 mil anos, alguém carregou duas toneladas de estalagmites para formar grandes anéis onde a luz nunca chegava

A 336 metros da entrada de uma caverna no sudoeste da França, onde a luz natural não chega, alguém quebrou centenas de estalagmites

A 336 metros da entrada de uma caverna no sudoeste da França, onde a luz natural não chega, alguém quebrou centenas de estalagmites, selecionou fragmentos e os organizou em grandes anéis. Isso aconteceu há cerca de 176.500 anos, muito antes da chegada do Homo sapiens à Europa. A data praticamente aponta para um único construtor possível: os neandertais.

A grande virada ocorreu quando pesquisadores aplicaram datação por séries de urânio diretamente às formações de calcita
A grande virada ocorreu quando pesquisadores aplicaram datação por séries de urânio diretamente às formações de calcita - Imagem gerada por IA

O que os neandertais construíram dentro da caverna?

A Caverna de Bruniquel guarda duas estruturas principais em forma de anel e quatro acumulações menores feitas com pedaços de estalagmites quebradas, chamados pelos pesquisadores de “espeleofatos”. O estudo publicado na Nature calculou aproximadamente 400 fragmentos, com peso conjunto entre 2,1 e 2,4 toneladas.

Não parece ter sido resultado de processos naturais. As peças foram deslocadas e organizadas, algumas empilhadas em fileiras, enquanto outras funcionavam como calços e suportes. Para Jacques Jaubert e seus colegas, essa disposição indica uma sequência planejada de escolha, quebra, transporte e posicionamento das estalagmites.

Fragmentos de estalagmites foram selecionados e empilhados em formatos circulares.
Fragmentos de estalagmites foram selecionados e empilhados em formatos circulares. - Créditos: Etienne FABRE/SSAC

Como sabemos que a estrutura tem 176 mil anos?

A grande virada ocorreu quando pesquisadores aplicaram datação por séries de urânio diretamente às formações de calcita. O método permitiu datar o crescimento mineral ocorrido depois que as estalagmites foram quebradas e reorganizadas, chegando à idade de 176.500 anos, com margem de aproximadamente 2.100 anos.

Várias evidências tornam Bruniquel especialmente difícil de explicar sem presença humana deliberada:

  • Cerca de 400 pedaços de estalagmites foram selecionados, quebrados e organizados em estruturas definidas.
  • As construções ficam aproximadamente 336 metros para dentro da caverna, longe da iluminação natural.
  • Fragmentos de osso queimado, carvão e calcita alterada pelo calor indicam atividades envolvendo fogo.
  • Algumas peças foram colocadas em camadas e estabilizadas com técnicas simples de escoramento.
  • A idade coloca a construção no período dos neandertais antigos, muito antes da presença conhecida de humanos modernos na Europa.

Como eles chegaram tão longe na escuridão?

Esse é um dos aspectos mais intrigantes do sítio. Um estudo publicado em 2026 na Quaternary Science Reviews reconstruiu a antiga entrada da caverna utilizando levantamentos 3D, geologia, tomografia elétrica e novas datações. O trabalho concluiu que a passagem de entrada provavelmente tinha menos de dois metros de altura e ficava escura rapidamente.

Isso reforça a necessidade de iluminação artificial para alcançar a câmara. O estudo também indicou que a entrada natural foi fechada antes de aproximadamente 142.900 anos atrás, corroborando de maneira independente que as construções são muito mais antigas. Fogo, planejamento de percurso e conhecimento do espaço subterrâneo provavelmente eram indispensáveis.

Uso constante de iluminação artificial viabilizou trabalhos na escuridão profunda.
Uso constante de iluminação artificial viabilizou trabalhos na escuridão profunda. - Créditos: Nature

Para que serviam aqueles misteriosos anéis?

Essa é justamente a pergunta que a arqueologia ainda não consegue responder. As marcas de calor indicam atividades com fogo, mas não revelam o objetivo das estruturas. Abrigo, organização de alguma atividade prática e comportamento simbólico já foram discutidos, porém o artigo da Nature deixa claro que a função permanece incerta.

O cuidado é importante porque uma construção incomum não pode ser chamada automaticamente de templo ou espaço ritual. Ainda assim, o CNRS destaca que entrar tão profundamente, controlar iluminação e alterar deliberadamente o ambiente subterrâneo representa uma forma de apropriação da caverna que não era esperada para neandertais tão antigos.

Por que Bruniquel mudou nossa visão dos neandertais?

Os autores do estudo argumentam que uma construção dessa escala implica alguma forma de organização coletiva. Alguém precisou selecionar material, mover centenas de peças e organizar sua colocação enquanto o grupo permanecia centenas de metros dentro da caverna. A equipe considera Bruniquel uma das mais antigas construções humanas bem datadas conhecidas.

A descoberta não prova exatamente o que aqueles neandertais pensavam, mas derruba a ideia de que eram incapazes de planejamento elaborado. Ainda existem perguntas escondidas naquela escuridão de 176 mil anos. E cada nova análise de Bruniquel é um motivo para abandonar antigas caricaturas e observar com mais atenção até onde os neandertais realmente conseguiam chegar.