Há 70 anos, um transatlântico de 213 metros repousa no fundo do Atlântico e mergulhadores ainda arriscam descer até seus salões
Sete décadas após a colisão que levou o transatlântico ao fundo do mar, seus destroços continuam mudando e despertando fascínio e debate.
A cerca de 80 quilômetros ao sul de Nantucket, um gigante italiano de 213 metros repousa no fundo do Atlântico há 70 anos. O Andrea Doria, luxuoso transatlântico que afundou em 1956, continua atraindo exploradores mesmo sendo considerado um dos naufrágios mais perigosos do mundo, apelidado de “Monte Everest do mergulho”.

Como o Andrea Doria acabou no fundo do Atlântico?
O Andrea Doria deixou Gênova em 17 de julho de 1956 para sua 101ª viagem, levando 1.706 passageiros e tripulantes rumo a Nova York. Na noite de 25 de julho, em uma região coberta por forte nevoeiro perto de Nantucket, sua trajetória encontrou a do navio sueco Stockholm.
A colisão abriu uma enorme área do lado direito do Andrea Doria e provocou uma inclinação que dificultou o uso de parte dos botes salva-vidas. Mesmo assim, o navio permaneceu flutuando por aproximadamente 11 horas, permitindo uma grande operação de resgate. Das 1.706 pessoas a bordo, 1.660 sobreviveram.

Por que o naufrágio ganhou o apelido de Monte Everest?
O casco repousa em águas profundas, frias e sujeitas a fortes correntes, enquanto décadas de deterioração transformaram seu interior em uma estrutura instável. Sedimentos podem limitar a visibilidade e partes metálicas continuam desabando. Por esses motivos, instituições marítimas descrevem o local como um dos grandes desafios do mergulho técnico.
- O fundo do mar na região está a aproximadamente 76 metros abaixo da superfície.
- Correntes, água fria e baixa visibilidade tornam o ambiente especialmente difícil.
- Conveses e passagens mudaram ou desabaram depois de décadas de corrosão.
- Ao menos dezenas de incidentes graves já foram associados à exploração do naufrágio ao longo dos anos.
O apelido não surgiu apenas pela profundidade. O Andrea Doria ganhou fama porque reúne vários perigos no mesmo lugar e continua mudando conforme o oceano destrói sua estrutura. Áreas conhecidas por gerações anteriores de exploradores desapareceram, enquanto desabamentos revelam partes que antes estavam escondidas.
O que ainda aparece dentro dos destroços?
Desde os primeiros anos após o naufrágio, expedições recuperaram louças, sinos, objetos decorativos e peças ligadas à navegação. Uma exposição da Noble Maritime Collection, em Nova York, já reuniu fotografias e diversos artefatos retirados do Andrea Doria, incluindo objetos das diferentes classes de passageiros.
Algumas recuperações se tornaram lendárias. Uma estátua de bronze do almirante genovês Andrea Doria, que dava nome ao navio, foi retirada em partes e posteriormente restaurada. Outros objetos recuperados ao longo das décadas ajudam hoje museus e pesquisadores a reconstruir como era a vida dentro de um grande transatlântico dos anos 1950.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube X-MarcosNavigator mostrando um documentário sobre o naufrágio do SS Andre Doria.
Por que retirar objetos do navio provoca discussão?
A recuperação de artefatos divide opiniões. Para alguns exploradores, objetos expostos pela deterioração deveriam ser preservados antes que sejam destruídos ou soterrados. Já na arqueologia marítima, existe uma preocupação importante com a preservação do contexto em que cada peça é encontrada, pois sua posição pode fornecer informações históricas valiosas.
O debate fica ainda mais delicado porque o Andrea Doria também é o local de uma tragédia humana. A colisão causou 51 mortes, sendo 46 pessoas no navio italiano e cinco no Stockholm. Por isso, qualquer discussão sobre exploração e preservação envolve não apenas patrimônio histórico, mas também memória e respeito pelas pessoas envolvidas.
Quanto tempo o Andrea Doria ainda pode resistir?
O oceano está lentamente desmontando o transatlântico. Conveses cederam, partes do casco se separaram e regiões antes reconhecíveis mudaram completamente. Essa transformação faz com que o Andrea Doria de hoje seja bastante diferente daquele registrado pelas primeiras expedições realizadas pouco depois do naufrágio.
Setenta anos depois, talvez seja justamente essa sensação de desaparecimento que mantenha a história tão fascinante. Vale acompanhar o destino do Andrea Doria enquanto ele ainda pode ser estudado, porque cada estrutura que desaba leva consigo uma pequena parte de um dos episódios marítimos mais marcantes do século XX.