Jovens macacos começaram a “sequestrar” filhotes de outra espécie e o comportamento se espalhou pelo grupo como uma espécie de moda
Comportamento começou com um jovem macho, espalhou-se por imitação e intriga cientistas por não oferecer vantagem aparente.
Em uma ilha do Panamá, um comportamento inesperado começou com um único macaco e acabou virando algo parecido com uma moda entre os jovens do grupo. Macacos-prego-de-cara-branca passaram a carregar filhotes de bugios por dias, mesmo sem obter comida, proteção ou qualquer benefício evidente com isso.

Como começou o estranho comportamento em Jicarón?
O caso foi registrado na ilha de Jicarón, no Parque Nacional Coiba, onde pesquisadores acompanham macacos-prego-de-cara-branca por meio de câmeras automáticas. As imagens revelaram um jovem macho carregando um pequeno bugio, comportamento que inicialmente parecia ser apenas uma ocorrência isolada.
O primeiro protagonista frequente recebeu dos pesquisadores o apelido de Joker. Durante meses, ele apareceu transportando diferentes filhotes, que se agarravam às suas costas ou barriga enquanto o macaco continuava atividades comuns, como caminhar pela floresta e manipular alimentos.

Quando outros macacos começaram a imitar a prática?
O que transformou a observação em algo muito mais intrigante aconteceu alguns meses depois. Outros machos jovens passaram a carregar filhotes de bugio da mesma maneira. Em 15 meses de registros, cinco macacos-prego imaturos foram vistos transportando 11 filhotes diferentes.
A sequência chamou a atenção porque sugere uma transmissão social. O comportamento apareceu primeiro em um indivíduo e, depois da exposição dos companheiros à novidade, começou a surgir em outros integrantes do mesmo grupo. Para os cientistas, esse padrão lembra a formação de uma tradição aprendida por observação.
O que torna essa descoberta tão incomum?
Alguns filhotes permaneceram com os macacos-prego por vários dias, chegando a períodos de até nove dias em determinados registros. Os adultos da espécie dos bugios podiam ser vistos ou ouvidos nas proximidades, enquanto os jovens carregadores seguiam sua rotina sem demonstrar um objetivo claro.
- Onze filhotes de bugio diferentes foram identificados nas imagens durante 15 meses.
- Cinco machos jovens de macaco-prego participaram do comportamento registrado.
- Alguns filhotes foram carregados continuamente durante vários dias.
- O fenômeno ficou restrito ao grupo em que a prática apareceu inicialmente.
A situação também teve consequências graves para os bugios. Filhotes muito pequenos dependem do leite materno para sobreviver, algo que os macacos-prego não poderiam fornecer. Pelo menos quatro mortes foram registradas, e os pesquisadores consideram provável que outros filhotes também não tenham sobrevivido.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Reino Selvagem Oficial mostrando curiosidades sobre os macacos-prego-de-cara-branca.
https://www.youtube.com/watch?v=AWVpAdXfCdo
Por que os macacos fariam isso sem ganhar nada?
Essa é justamente a pergunta que torna o estudo tão fascinante. Os pesquisadores não encontraram evidências de que os macacos-prego obtivessem alimento, vantagem social ou algum benefício direto. Também não parecia um caso típico de adoção, já que os responsáveis eram principalmente machos jovens.
Uma hipótese discutida envolve o tédio e a falta de estímulos. Jicarón possui poucos competidores e praticamente nenhum predador para esses macacos, criando um ambiente relativamente seguro. Com tempo disponível, animais inteligentes e curiosos poderiam experimentar novidades simplesmente porque elas são estimulantes.
Uma moda entre macacos pode ensinar algo sobre cultura?
O caso mostra que tradições animais não precisam surgir apenas para resolver problemas de sobrevivência. Um comportamento aparentemente sem utilidade pode começar com um indivíduo, chamar a atenção dos demais e se espalhar por imitação, formando algo surpreendentemente parecido com tendências observadas em grupos humanos.
Agora, acompanhar esses macacos pode revelar se a prática desaparece tão rapidamente quanto surgiu ou se permanece por gerações. Observar o que acontecerá em Jicarón é urgente, especialmente porque os bugios locais já enfrentam riscos de conservação e uma simples “moda” pode ter consequências muito reais.