Jubartes aprendem novas canções umas com as outras e espalham tendências musicais por populações inteiras
Em certas regiões do oceano, uma nova canção pode surgir e, pouco tempo depois, ser repetida por baleias separadas por milhares de quilômetros.
Em certas regiões do oceano, uma nova canção pode surgir e, pouco tempo depois, ser repetida por baleias separadas por milhares de quilômetros. As jubartes não cantam repertórios imutáveis: os machos aprendem, modificam e substituem sequências sonoras, criando verdadeiras modas musicais que atravessam populações a cada temporada.

Como funciona o canto das baleias-jubarte?
O canto das jubartes é formado por unidades sonoras organizadas em frases e temas, que se repetem em sequências complexas. Ele é produzido principalmente pelos machos durante a época reprodutiva. Embora sua função exata ainda seja debatida, os cientistas acreditam que possa ajudar na atração de parceiras e na interação com outros machos.
Dentro de uma mesma população, os cantores costumam executar versões muito semelhantes da música predominante. O repertório, porém, sofre pequenas alterações ao longo do tempo. Sons são acrescentados, removidos ou reorganizados até que a composição fique diferente da registrada na temporada anterior.

Por que as canções parecem seguir modas?
As jubartes aprendem os cantos umas com as outras, processo conhecido como transmissão cultural. Quando uma novidade sonora ganha espaço, outros machos podem incorporá-la ao próprio repertório. Aos poucos, a versão anterior perde força e é substituída, em um movimento comparável à popularização de uma música entre humanos.
Em alguns casos, a transformação acontece gradualmente. Em outros, uma composição inteiramente nova invade a população e substitui rapidamente o canto antigo. Pesquisadores chamam esse fenômeno de revolução cultural, pois não depende de mudanças genéticas, mas da capacidade de observar, memorizar e reproduzir comportamentos.
Como uma música atravessa o oceano?
As baleias de populações diferentes podem se encontrar durante migrações, em áreas de alimentação ou em pontos de passagem compartilhados. Esses contatos permitem que um macho escute uma composição desconhecida e aprenda partes dela. Ao seguir sua viagem, ele pode levar a novidade para outro grupo distante.
Os estudos sobre essa circulação identificaram alguns padrões marcantes:
- Canções Podem surgir em uma população e avançar para outras;
- Mudanças Costumam seguir rotas geográficas reconhecíveis;
- Machos Podem combinar elementos antigos e novos durante a aprendizagem;
- Repertórios Inteiros podem substituir músicas anteriores;
- Encontros Migratórios favorecem a troca cultural entre grupos.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Projeto Baleia Jubarte mostrando a sinfonia que as baleias-jubartes emitem pelos oceanos.
O que as pesquisas descobriram no Pacífico?
Um estudo publicado na revista Current Biology, liderado por Ellen Garland, acompanhou cantos registrados em populações do Pacífico Sul. A equipe observou que novas músicas se deslocavam da Austrália em direção à Polinésia Francesa, passando sucessivamente de uma população para outra ao longo de vários anos.
Outra pesquisa, divulgada na Royal Society Open Science, encontrou evidências de que essas revoluções musicais continuaram avançando até o Pacífico oriental. Segundo os autores, a dimensão dessa transmissão cultural entre animais é excepcional e pode se estender por uma vasta parte do Hemisfério Sul.
Ouvir as jubartes é descobrir uma cultura viva
O canto das jubartes mostra que cultura não é uma exclusividade humana. Esses animais compartilham informações, seguem novidades e transformam tradições coletivas sem depender de palavras. Cada temporada registra uma etapa dessa história sonora, mas ruídos produzidos por embarcações e atividades industriais podem dificultar a comunicação.
Proteger as rotas migratórias e reduzir a poluição acústica é urgente para que essas canções continuem circulando. Quando uma população deixa de ser ouvida, não perdemos apenas sons do oceano, mas uma tradição construída e transmitida entre gerações. Escutar as jubartes também significa reconhecer que o mar possui sua própria cultura.