Lamber a pele desse sapo pode causar alucinações e deixar “chapado”: verdade ou mito?

A lenda de que lamber um sapo provoca alucinações nasceu de um fato real, mas esconde um risco grave.

A lenda de que lamber um sapo provoca alucinações nasceu de um fato real, mas esconde um risco grave. O sapo do rio Colorado produz uma poderosa substância psicoativa em sua pele, porém o contato com suas secreções pode causar intoxicação, alterações cardíacas perigosas e uma visita urgente ao hospital.

O sapo do rio Colorado, conhecido cientificamente como Incilius alvarius, vive no sudoeste dos Estados Unidos e no noroeste do México
O sapo do rio Colorado, conhecido cientificamente como Incilius alvarius, vive no sudoeste dos Estados Unidos e no noroeste do México - Imagem gerada por IA

Existe mesmo um sapo com propriedades psicodélicas?

O sapo do rio Colorado, conhecido cientificamente como Incilius alvarius, vive no sudoeste dos Estados Unidos e no noroeste do México. Glândulas localizadas em sua cabeça liberam uma secreção que contém 5-MeO-DMT, composto que atua sobre receptores de serotonina no cérebro e apresenta efeitos psicoativos intensos.

David E. Nichols, professor emérito de farmacologia da Universidade Purdue e pesquisador responsável pela criação de um análogo sintético da substância, descreve o composto como um dos psicodélicos mais potentes conhecidos. Seus efeitos podem incluir desorientação, perda temporária da percepção de identidade e falhas de memória.

Secreções do sapo do rio Colorado escondem graves riscos à saúde.
Secreções do sapo do rio Colorado escondem graves riscos à saúde. - Imagem gerada por IA.

Lamber o sapo pode causar alucinações?

Apesar da fama, especialistas afirmam que lamber o animal não costuma produzir os efeitos psicodélicos associados ao 5-MeO-DMT. A substância não apresenta a mesma atividade quando ingerida pela boca, mas isso não torna a prática segura. A secreção contém outros compostos capazes de provocar uma intoxicação grave.

Haley Dourron, pesquisadora da Universidade de Linköping, alerta que até animais domésticos precisaram de atendimento emergencial depois de lamber esses sapos. O contato direto também expõe a pessoa a microrganismos, irritações e doses imprevisíveis de toxinas, sem qualquer controle médico ou garantia de segurança.

Quais são os principais riscos para a saúde?

Entre as substâncias defensivas do sapo estão os glicosídeos cardíacos, compostos que interferem na força e no ritmo das contrações do coração. Dependendo da quantidade absorvida e das condições de saúde da pessoa, os efeitos podem evoluir rapidamente e exigir atendimento médico imediato. Os riscos incluem:

  • Alterações perigosas no ritmo cardíaco;
  • Náuseas, confusão e perda de consciência;
  • Intoxicação com intensidade imprevisível;
  • Necessidade de atendimento médico de emergência.

Esses compostos podem desencadear arritmias potencialmente fatais, razão pela qual parques e especialistas recomendam não tocar, manipular ou lamber animais silvestres. Diante de uma exposição acidental, a orientação adequada é procurar ajuda médica e informar claramente qual animal esteve envolvido.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube CUMULUS TV mostrando mais detalhes do sapo do rio Coloroda e suas propriedades psicodélicas.

O que a ciência pesquisa sobre o 5-MeO-DMT?

Pesquisadores estudam versões sintéticas do composto para compreender seus efeitos no cérebro e seu possível uso terapêutico. Estudos preliminares investigam uma eventual ação antidepressiva rápida, com melhora relatada em alguns participantes por pelo menos uma semana, mas os resultados ainda são iniciais e não comprovam segurança para uso fora de pesquisas controladas.

Dourron destaca que existem poucos estudos de neuroimagem sobre o 5-MeO-DMT, diferentemente do que ocorre com LSD e psilocibina. Cientistas também avaliam se seus efeitos incomuns envolvem circuitos cerebrais relacionados a certos tipos de convulsão. Por isso, qualquer aplicação médica depende de novos ensaios clínicos e acompanhamento rigoroso.

Proteger os sapos também é uma questão urgente

A busca pela secreção ameaça populações do sapo do rio Colorado, já afetadas pela perda de habitat, mudanças nas chuvas, poluição e doenças fúngicas. Robert Villa, da Universidade do Arizona, afirma que animais estão sendo retirados ilegalmente da natureza para exploração de suas toxinas, agravando a pressão sobre a espécie.

A curiosidade nunca deve justificar sofrimento animal ou risco à vida. Ao encontrar um sapo, mantenha distância, proteja crianças e animais domésticos e deixe que ele siga seu caminho. Combater essa lenda com informação é uma atitude urgente, capaz de evitar intoxicações e preservar uma espécie essencial para o equilíbrio ambiental.