Macacos começaram a “sequestrar” filhotes de outra espécie e cientistas levaram meses para entender o comportamento que nunca tinham visto

Jovens macacos copiaram um comportamento incomum que se espalhou pelo grupo e trouxe consequências graves para filhotes de outra espécie.

Um comportamento registrado por câmeras automáticas em uma ilha do Panamá intrigou pesquisadores: jovens macacos-prego-de-cara-branca passaram a carregar filhotes de bugio, uma espécie diferente. O primeiro caso apareceu em 2022 e, nos meses seguintes, outros machos copiaram a ação. A sequência levou cientistas a investigar como uma prática sem benefício aparente conseguiu se espalhar pelo grupo.

Comportamento sem benefício aparente virou tradição entre macacos no Panamá
Comportamento sem benefício aparente virou tradição entre macacos no PanamáImagem gerada por inteligência artificial

Onde os macacos foram observados com os filhotes?

As imagens vieram da ilha de Jicarón, parte do Parque Nacional Coiba, no Panamá. Mais de 80 câmeras instaladas para acompanhar o uso de ferramentas pelos macacos registraram algo inesperado. Um macho jovem, apelidado de Joker pelos pesquisadores, apareceu carregando um filhote de bugio preso ao corpo, como se transportasse um integrante de sua própria espécie.

O registro não foi isolado. Ao analisar meses de gravações, a equipe identificou outros jovens repetindo o comportamento. Cinco macacos-prego machos carregaram 11 filhotes de bugio ao longo de aproximadamente 15 meses. A prática ocorreu em um único grupo estudado, o que ajudou a sustentar a interpretação de que se tratava de uma tradição social localizada.

A prática copiada pelo grupo acabou prejudicando filhotes de bugio
A prática copiada pelo grupo acabou prejudicando filhotes de bugioImagem gerada por inteligência artificial

Quem começou e como a prática se espalhou?

Joker foi o primeiro indivíduo visto fazendo as capturas. Durante cerca de quatro meses, ele carregou diferentes filhotes. Depois, outros machos jovens adotaram o mesmo padrão. As câmeras não registraram uma recompensa alimentar, ajuda dos filhotes ou ganho evidente de posição social, por isso a imitação chamou mais atenção do que a ação inicial.

Os dados permitiram acompanhar etapas claras da novidade:

  • um macho jovem iniciou o comportamento no começo de 2022;
  • outros jovens do mesmo grupo passaram a repeti-lo;
  • os filhotes eram transportados por horas ou dias;
  • a prática continuou mesmo sem vantagem observável;
  • nenhum comportamento equivalente apareceu nos demais grupos monitorados.

Os macacos estavam tentando adotar outra espécie?

As imagens não apoiam a ideia de adoção. Apenas machos jovens participaram, enquanto cuidados parentais em primatas costumam envolver outras interações, como proteção e alimentação. Os macacos-prego carregavam os filhotes, mas não tinham como fornecer o leite de que eles precisavam. Também não demonstravam o conjunto de cuidados necessário para mantê-los vivos.

Os bugios adultos, incluindo as mães, foram ouvidos chamando nas proximidades. Pelo menos quatro filhotes morreram, provavelmente por falta de alimento, e os pesquisadores consideram possível que os demais também não tenham sobrevivido. O comportamento tampouco parecia predatório, pois não havia agressão destinada a matar ou consumir os animais.

O vídeo da Associated Press reúne imagens do estudo e ajuda a visualizar o transporte dos filhotes. Veja no canal do YouTube Associated Press.

Por que apenas machos jovens participaram?

Os autores do estudo relacionam o padrão à fase de vida dos envolvidos. Macacos jovens têm mais tempo para explorar e podem testar novidades que animais ocupados com filhotes, alimento ou disputas evitam. Na ilha, a oferta de recursos e a ausência de grandes predadores também podem criar condições para atividades sem finalidade imediata.

Isso não significa que o tédio esteja comprovado como causa. Ele é uma hipótese para explicar por que a inovação surgiu naquele ambiente e naquele grupo. A explicação mais segura é que jovens observaram uns aos outros e copiaram uma prática disponível, um processo semelhante ao de outras tradições animais aprendidas socialmente.

Como um comportamento sem vantagem óbvia consegue virar moda entre animais?

Uma tradição não precisa começar como solução para um problema. Se um indivíduo realiza uma ação visível e outros têm tendência a imitá-lo, a repetição pode se sustentar por curiosidade ou atenção social. Pesquisadores chamam de tradição quando o padrão se espalha e persiste dentro de um grupo graças ao aprendizado entre seus membros.

O episódio amplia o debate sobre cultura animal porque mostra uma prática custosa e aparentemente inútil circulando como uma moda. Outros comportamentos curiosos, como os de um lêmure que caça com um dedo especializado, também desafiam explicações rápidas, embora tenham funções evolutivas bem diferentes.

O que o estudo ainda precisa esclarecer?

As câmeras mostraram quem carregava os filhotes e como a prática passou entre indivíduos, mas não revelaram a motivação interna dos macacos. A equipe ainda procura entender por que Joker começou, o que mantinha o interesse dos outros machos e se o comportamento desapareceu depois de perder novidade.

O caso também reforça a importância de observações longas. Um único vídeo poderia parecer cuidado, ataque ou brincadeira. Meses de registros permitiram comparar indivíduos, verificar consequências e descartar interpretações simples. A conclusão mais sólida não é que os macacos adotaram ou sequestraram por maldade, mas que criaram e transmitiram uma tradição prejudicial a outra espécie.