Mergulhadores encontram ferramentas de pedra em nascente submersa há pelo menos 9 mil anos na Austrália, e 44% delas vieram de rochas localizadas a 23 km de distância
Artefatos milenares encontrados sob as ondas australianas revelam rotas terrestres antigas, conexões culturais profundas e memórias submersas
Vestígios arqueológicos preservados nas profundezas marinhas revelam segredos fascinantes sobre territórios que desapareceram com as transformações climáticas globais. Em Flying Foam Passage, antigas ferramentas líticas mostram como comunidades tradicionais ocupavam vales férteis antes do avanço implacável das águas oceânicas na região costeira.
Como ocorreu a descoberta dessas ferramentas milenares sob o oceano?
Durante expedições subaquáticas especializadas em Murujuga, mergulhadores identificaram nove instrumentos talhados repousando no fundo marinho da Austrália Ocidental. Esse sítio único preservava peças associadas a uma antiga nascente límpida que acabou completamente encoberta pelo mar há cerca de nove mil anos decorridos.
O término da última glaciação provocou um aumento expressivo no volume dos mares, submergindo vastas planícies continentais habitadas. Essas relíquias continuaram protegidas contra o desgaste das correntes marítimas, garantindo que a memória física da ocupação humana pré-histórica permanecesse surpreendentemente intacta para a ciência contemporânea.
De onde vieram as matérias-primas utilizadas na confecção dos artefatos?
Exames geoquímicos minuciosos comprovaram que quarenta e quatro por cento dos objetos se originaram de formações rochosas distantes. Os materiais líticos procediam da atual Ilha Rosemary, localizada a vinte e três quilômetros do ponto onde descansavam os artefatos catalogados.
Esse deslocamento expressivo evidencia que caçadores coletores percorriam rotas terrestres estruturadas para transportar matérias de alta qualidade geológica. Essa dinâmica confirma o amplo planejamento logístico, o conhecimento profundo sobre o meio natural e a mobilidade estratégica mantida pelos povos aborígenes naquela época remota.
Abaixo, um vídeo do canal Flinders University no YouTube que apresenta detalhes adicionais sobre o tema:
Como a nascente de água doce congregava grupos no território?
Fontes de água potável exerciam papel crucial para a sobrevivência em ambientes áridos, atraindo viajantes e caçadores. A nascente identificada em Flying Foam Passage provavelmente funcionava como um ponto de convergência comunitário, onde diferentes famílias compartilhavam alimentos e renovavam seus recursos essenciais.
Ao redor desses mananciais, grupos organizavam atividades de manufatura, manutenção de lâminas e rituais sociais significativos. O descarte ou esquecimento intencional dessas peças reforça a relevância do local como parada frequente em itinerários ancestrais, consolidando conexões territoriais e laços culturais duradouros entre populações distintas.
Quais métodos científicos confirmaram a origem dos materiais?
Cientistas liderados por Jonathan Benjamin aplicaram a espectrometria de fluorescência de raios X para mapear a composição dos materiais. Esse método tecnológico revelou a assinatura geoquímica exata de cada fragmento rochoso, confirmando a origem mineral dos vestígios associados a depósitos geológicos mapeados previamente.
Divulgada na revista Quaternary Science Reviews, a pesquisa estabelece novos marcos para a arqueologia subaquática australiana. O cruzamento entre dados sedimentares e análises químicas comprova que as plataformas marinhas resguardam registros inestimáveis sobre o passado imemorial e a adaptação ambiental humana.
Dentre os principais avanços metodológicos proporcionados por esse estudo multidisciplinar destacam-se os seguintes pontos:
- Aplicação da espectrometria de fluorescência de raios X para exames geoquímicos não destrutivos.
- Mapeamento de proveniência mineral comparando os artefatos com pedreiras costeiras antigas.
- Análise geológica das transformações ambientais ocorridas após o término da Era do Gelo.
Qual é a relevância dos guardas indígenas na preservação subaquática?
A cooperação com a Murujuga Aboriginal Corporation consolidou um modelo exemplar de arqueologia colaborativa. Guardas tradicionais mergulhadores integraram os trabalhos práticos, conectando o saber imemorial das comunidades à investigação científica marinha para resguardar esse inestimável patrimônio cultural submerso com o devido reconhecimento comunitário.
O protagonismo dos povos originários assegura que áreas inundadas continuem reconhecidas como extensões vivas de suas terras ancestrais. Proteger essas paisagens marinhas fortalece a soberania indígena, valoriza tradições orais milenares e transforma o conhecimento histórico em base sólida para a preservação arqueológica global.

