Na época do acasalamento, até 10 equidnas machos podem formar uma fila atrás da mesma fêmea e segui la durante semanas
Na reprodução, uma fêmea de equidna pode ser seguida por até dez machos antes de escolher um parceiro e botar um ovo.
Na época reprodutiva, uma cena incomum pode atravessar a vegetação australiana: uma fêmea de equidna-de-focinho-curto avança à frente, seguida por vários machos em fila. Conhecida como trem de equidnas, a perseguição pode durar dias ou semanas e reunir até dez pretendentes. O ritual já seria curioso por si só, mas pertence a um dos poucos mamíferos que põem ovos. Entre a longa corte, a escolha da fêmea e o nascimento de um filhote minúsculo, sua reprodução desafia expectativas comuns sobre os mamíferos.

Como se forma o trem de equidnas
O equidna-de-focinho-curto, Tachyglossus aculeatus, é encontrado na Austrália e na Nova Guiné. Durante a estação de acasalamento, machos localizam uma fêmea pelo odor e passam a segui-la em linha, com o maior indivíduo geralmente mais próximo. Outros podem se juntar ou abandonar o grupo. O deslocamento continua enquanto ela procura alimento, descansa ou tenta afastar os pretendentes.
A fila não é uma marcha perfeitamente organizada nem garante cópula ao macho da frente. A fêmea controla o ritmo e pode rejeitar aproximações. Quando está receptiva, os machos cavam uma vala circular ao redor dela e disputam posição, empurrando os rivais para fora. O vencedor se alinha ao lado da fêmea. Mesmo em grupos numerosos, ela costuma acasalar com apenas um.

Dez machos, semanas de espera e muita competição
Registros variam quanto ao tamanho e à duração do trem porque os animais são difíceis de acompanhar em campo. Museus e zoológicos descrevem grupos de até dez machos e corte que pode se estender por várias semanas. A composição muda ao longo do percurso, o que torna imprecisa a ideia de dez indivíduos seguindo a mesma fêmea sem interrupção durante todo o período.
O ritual combina três comportamentos marcantes:
- machos detectam o rastro da fêmea e seguem em fila;
- novos pretendentes podem entrar, enquanto outros desistem;
- a fêmea adia ou recusa a cópula até ficar receptiva;
- os machos cavam uma vala e disputam o acesso sem formar um casal permanente.
O mamífero que troca o útero por um ovo
Equidnas e ornitorrincos são monotremados, linhagem de mamíferos que põe ovos. Após a fecundação, a fêmea desenvolve uma dobra temporária de pele no abdômen. Cerca de três semanas depois, deposita ali um único ovo pequeno, de casca flexível. A incubação no abrigo corporal dura aproximadamente dez ou onze dias, até o filhote romper a casca.
O recém-nascido, chamado puggle em inglês, é minúsculo, sem espinhos e muito dependente. A mãe não possui mamilos: o leite é liberado por poros em áreas especializadas da pele e o filhote o lambe. Conforme os espinhos começam a crescer, ela o transfere para uma toca protegida e retorna periodicamente para amamentá-lo durante meses.
O canal do YouTube San Diego Zoo Wildlife Alliance mostra o primeiro nascimento de um filhote de equidna registrado no Safari Park da instituição:
O que esse ritual revela sobre a espécie
A perseguição prolongada permite que a fêmea avalie pretendentes e talvez sincronize o acasalamento com sua condição reprodutiva. Para os machos, acompanhar a fila exige energia e aumenta a competição. Cientistas ainda investigam quais sinais determinam a escolha, mas o comportamento mostra que reprodução não se resume ao encontro final: envolve olfato, resistência, disputa e decisão da fêmea.
Fora da estação, equidnas costumam ter vida solitária e procuram formigas e cupins com o focinho alongado e a língua pegajosa. Escavam com garras fortes e usam espinhos como defesa. Esses hábitos explicam por que um trem pode ser difícil de observar por inteiro em ambientes naturais. Trilhas, tocas e vegetação densa ocultam partes importantes do percurso.
Uma reprodução rara entre mamíferos
A combinação parece improvável: muitos machos em fila, uma única escolha, um ovo em uma bolsa temporária e leite oferecido sem mamilos. Cada etapa, porém, faz parte da biologia dos monotremados e não torna o equidna menos mamífero. Pelagem, produção de leite e outras características confirmam o parentesco, enquanto a postura de ovos preserva uma história evolutiva antiga.
Observar esse ciclo também reforça a necessidade de manter distância dos animais. Interromper um trem, tocar na fêmea ou tentar ver o ovo causa estresse e pode comprometer a reprodução. A melhor forma de acompanhar a cena é registrar de longe e comunicar órgãos de fauna quando necessário. O espetáculo está justamente em permitir que a fila siga seu caminho.