Na Tunísia, comunidades vivem em pátios subterrâneos que mantêm os cômodos protegidos do calor do deserto e preservam uma arquitetura berbere centenária
As casas subterrâneas de Matmata, na Tunísia, usam a terra para amenizar o calor do deserto. Entenda como funciona essa arquitetura amazigh
Em Matmata, no sul da Tunísia, algumas moradias tradicionais são escavadas diretamente no solo e organizadas ao redor de grandes pátios abertos. Conhecidas como casas trogloditas, essas construções aproveitam a proteção térmica da terra para amenizar as variações de temperatura em uma região de verões muito quentes. A arquitetura, associada às comunidades amazigh também chamadas berberes , mostra como o conhecimento local transformou as características do terreno em espaços para morar, cozinhar, descansar e armazenar alimentos.

Como são construídas as casas subterrâneas de Matmata?
Em vez de erguer todos os cômodos acima do chão, os moradores escavam um grande espaço, geralmente circular, que funciona como pátio central. Nas paredes desse vão, abrem-se os ambientes da casa, como quartos, cozinha e depósitos. O acesso pode ocorrer por um corredor escavado na encosta, e a luz natural entra principalmente pelo pátio, que também organiza a circulação entre os cômodos.
O resultado é uma moradia que pode parecer quase invisível quando observada de longe, porque grande parte dos espaços fica abaixo do nível do terreno. A descrição da UNESCO sobre o patrimônio troglodita do sul tunisiano registra que as casas de Matmata e Tamezret são escavadas em solo argiloso e organizadas em torno de um pátio que dá acesso aos diferentes ambientes domésticos.
Por que viver abaixo do solo ajuda a enfrentar o calor?
A terra ao redor dos cômodos funciona como uma barreira que retarda a entrada do calor e reduz as oscilações de temperatura. Enquanto a superfície recebe diretamente a radiação solar e aquece ao longo do dia, o solo em maior profundidade tende a variar mais lentamente. Isso ajuda os ambientes escavados a permanecerem relativamente frescos durante os períodos mais quentes, embora a temperatura interna não seja constante nem igual em todas as casas.
O pátio também tem uma função importante: permite a entrada de luz e oferece um espaço aberto protegido pelas paredes ao redor. Essa combinação de sombra, profundidade e massa de terra faz parte de uma arquitetura adaptada às condições locais. Soluções tradicionais de conforto térmico aparecem em outras regiões quentes, como nos pátios internos e nas paredes espessas usados na arquitetura iraniana, embora cada técnica responda a um contexto climático próprio.

Que papel essas moradias desempenham na cultura amazigh?
As casas subterrâneas não são apenas uma curiosidade arquitetônica: elas expressam a relação histórica entre as comunidades amazigh e o ambiente do sul da Tunísia. A disposição dos cômodos atende a atividades cotidianas, como dormir, preparar alimentos e guardar provisões, enquanto o pátio funciona como centro da vida doméstica. A técnica de escavar a habitação no solo demonstra uma adaptação construída a partir dos materiais e das condições disponíveis na região.
Essa herança também se relaciona a outras soluções antigas para enfrentar o calor, como as observadas no uso de pátios, paredes espessas e ventilação no Egito antigo. Apesar das semelhanças no objetivo de amenizar o calor, as casas de Matmata têm uma configuração própria, marcada pelos espaços escavados ao redor do pátio.
As casas trogloditas continuam presentes em Matmata?
Sim, mas a tradição convive com mudanças no modo de vida local. Parte dos moradores passou a viver em construções convencionais, e algumas casas subterrâneas foram adaptadas para receber visitantes, enquanto outras permanecem como testemunhos da arquitetura tradicional. A existência dessas diferentes formas de ocupação mostra que preservar uma técnica histórica não significa necessariamente manter todas as famílias vivendo da mesma maneira que as gerações anteriores.
Matmata continua sendo um exemplo marcante de como uma comunidade pode usar o próprio terreno para criar abrigo diante de condições climáticas exigentes. Mais do que a aparência incomum dos pátios escavados, o que chama a atenção é a lógica da construção: aproveitar a proteção térmica do solo, trazer luz pelo centro aberto e distribuir os cômodos ao redor dele. É uma herança arquitetônica que mantém visível a criatividade das comunidades amazigh e sua relação com a paisagem tunisiana.