Nas ilhas Galápagos eliminaram mais de 140.000 cabras e as tartarugas jovens se multiplicaram por 5

O maior desafio aparecia no fim, quando restavam poucos animais espalhados por áreas enormes e difíceis de acessar.

Nas Ilhas Galápagos, uma das maiores operações de erradicação de mamíferos invasores já realizadas retirou mais de 140 mil cabras que estavam destruindo a vegetação nativa. O resultado apareceu também entre as tartarugas gigantes do vulcão Alcedo: os indivíduos jovens, que representavam cerca de 5% das tartarugas observadas entre 1995 e 1999, passaram a responder por 24% entre 2000 e 2005, quase cinco vezes essa proporção.

O dado precisa de uma precisão importante: não significa que os pesquisadores tenham contado cinco vezes mais filhotes em toda Galápagos.
O dado precisa de uma precisão importante: não significa que os pesquisadores tenham contado cinco vezes mais filhotes em toda Galápagos. - Imagem gerada por IA

Como as cabras conseguiram causar tanto dano às Ilhas Galápagos?

Introduzidas no arquipélago durante o século XIX, as cabras se multiplicaram em ambientes que não haviam evoluído sob uma pressão de pastoreio tão intensa. Elas consumiam arbustos, mudas, cactos e árvores, provocavam erosão e competiam diretamente pelo alimento utilizado pelas tartarugas gigantes. No vulcão Alcedo, florestas importantes para oferecer sombra e água durante a estação seca chegaram a ser destruídas.

  • As cabras consumiam plantas nativas e mudas antes que elas crescessem.
  • O sobrepastoreio deixava partes do solo expostas à erosão.
  • Tartarugas gigantes encontravam menos alimento disponível.
  • Árvores que forneciam sombra e ajudavam a reter umidade desapareceram de algumas áreas.
  • A degradação também atingiu aves, insetos e plantas endêmicas.

O que foi o Projeto Isabela e como ele retirou mais de 140 mil cabras?

O Projeto Isabela foi planejado a partir de 1997 e concluído em 2006 para remover grandes mamíferos introduzidos de Pinta, Santiago e do norte de Isabela. No início do programa, somente essa última região tinha uma população estimada em cerca de 100 mil cabras. A operação combinou caçadores em terra, helicópteros, sistemas de localização geográfica e monitoramento constante.

O maior desafio aparecia no fim, quando restavam poucos animais espalhados por áreas enormes e difíceis de acessar. Para encontrá-los, as equipes utilizaram as chamadas “cabras Judas”: indivíduos esterilizados e equipados com transmissores eram soltos porque, sendo animais sociais, procuravam outras cabras. Os agentes seguiam o sinal e localizavam os grupos escondidos. Cerca de 770 dessas cabras foram usadas em Isabela.

As tartarugas jovens realmente se multiplicaram por cinco?

O dado precisa de uma precisão importante: não significa que os pesquisadores tenham contado cinco vezes mais filhotes em toda Galápagos. No vulcão Alcedo, a participação dos juvenis entre as tartarugas amostradas passou de aproximadamente 5% na fase inicial da campanha para 24% na fase posterior. O estudo também encontrou melhora no crescimento individual e na condição corporal depois da retirada das cabras e dos burros.

  • Entre 1995 e 1999, juvenis eram cerca de 5% das tartarugas amostradas.
  • Entre 2000 e 2005, essa participação chegou a aproximadamente 24%.
  • As tartarugas jovens também apresentaram melhora nas taxas de crescimento.
  • Uma população comparada em Santa Cruz não mostrou evolução semelhante no mesmo período.

    O dado precisa de uma precisão importante: não significa que os pesquisadores tenham contado cinco vezes mais filhotes em toda Galápagos.
    O dado precisa de uma precisão importante: não significa que os pesquisadores tenham contado cinco vezes mais filhotes em toda Galápagos. - Imagem gerada por IA

Por que retirar as cabras ajudou as tartarugas gigantes tão rapidamente?

As tartarugas gigantes e as cabras disputavam parte dos mesmos recursos vegetais, mas a competição era apenas uma parte do problema. Ao eliminar árvores e arbustos, os invasores alteravam o próprio funcionamento do habitat. Em Alcedo, a vegetação das regiões altas ajudava a capturar a neblina conhecida como garúa, formando pontos úmidos e sombreados usados pelas tartarugas durante a estação seca.

Depois que a pressão de pastoreio caiu, pequenos troncos começaram a rebrotar, mudas de árvores apareceram novamente e aumentaram arbustos, cactos Opuntia e outras plantas nativas. Os autores do estudo reconheceram que um evento climático raro também aumentou temporariamente a disponibilidade de alimento, mas a ausência de uma melhora equivalente na população comparada de Santa Cruz reforçou a retirada dos invasores como principal explicação para a recuperação observada em Alcedo.

O que a recuperação das Ilhas Galápagos revela sobre espécies invasoras?

O caso das Ilhas Galápagos mostra que proteger uma espécie ameaçada pode exigir recuperar todo o ambiente do qual ela depende. O Projeto Isabela não tratou apenas das tartarugas: ao retirar cabras invasoras, porcos e burros de determinadas áreas, permitiu que processos naturais voltassem a ocorrer e que plantas antes restritas a crateras ou cercados protegidos reaparecessem na paisagem.

A mudança de 5% para 24% na proporção de tartarugas jovens oferece uma medida concreta desse efeito, mas não é o único resultado. A volta de árvores, arbustos, cactos e outras espécies demonstra como uma população introduzida pode reorganizar um ecossistema inteiro — e como sua remoção pode abrir espaço para uma recuperação que continua anos depois do último animal invasor desaparecer.