No início do século XX, famílias podiam escolher uma casa num catálogo e receber milhares de peças pelo trem para montá la no terreno
Entre 1908 e 1940, a Sears vendeu dezenas de milhares de casas por catálogo, enviando projetos e milhares de peças de trem aos clientes.
No começo do século XX, comprar uma casa nos Estados Unidos podia começar com uma atividade que hoje associamos a escolher sapatos ou móveis: folhear um catálogo. A Sears vendia projetos residenciais completos e enviava por trem madeira já cortada, portas, janelas, ferragens e milhares de peças numeradas para que a construção fosse feita no terreno do comprador.

Como alguém comprava uma casa pelo catálogo?
A Sears começou a oferecer suas chamadas Modern Homes em 1908. O cliente escolhia entre projetos publicados em catálogos, enviava o pedido e recebia o material necessário para erguer a residência. Havia casas modestas e modelos maiores, com estilos que acompanhavam gostos arquitetônicos populares da época.
Não era uma casa pronta chegando sobre rodas. O pacote reunia projeto, instruções e componentes de construção que seriam descarregados, normalmente perto de uma estação ferroviária, e levados até o lote. Fundação, mão de obra e montagem continuavam exigindo planejamento local.

Quantas peças podiam chegar pelo trem?
Os kits eram impressionantes pela escala. Madeira pré-cortada, pregos, telhas, portas, esquadrias, pisos e outros materiais chegavam agrupados em grandes remessas. A padronização reduzia desperdício e tempo de corte no canteiro, além de permitir que peças viessem identificadas para facilitar a montagem.
A própria Sears afirmava que o sistema de madeira pré-cortada economizava trabalho em comparação com métodos tradicionais. Famílias podiam contratar carpinteiros ou participar da construção, mas o catálogo não transformava uma tarefa complexa em algo tão simples quanto montar um armário.
Quantas casas a Sears vendeu dessa maneira?
Os arquivos históricos da empresa estimam que entre 70 mil e 75 mil casas foram vendidas de 1908 a 1940, em 447 projetos diferentes. Nem todas podem ser identificadas hoje porque registros completos não sobreviveram e muitos imóveis foram reformados a ponto de esconder características originais.
Alguns números ajudam a dimensionar esse fenômeno:
- A Sears ofereceu casas por catálogo de 1908 a 1940, atravessando mais de três décadas de mudanças urbanas.
- O arquivo histórico da empresa estima entre 70 mil e 75 mil unidades vendidas.
- Ao longo do programa, foram oferecidos 447 projetos, do pequeno bungalow a residências muito maiores.
- Os materiais viajavam principalmente por ferrovia e precisavam ser transportados da estação até o terreno do comprador.
Por que essa ideia funcionou tão bem naquele momento?
A expansão ferroviária e o alcance nacional do catálogo Sears criaram uma combinação poderosa. Em cidades pequenas e áreas em crescimento, o comprador conseguia acessar materiais padronizados que talvez fossem difíceis de encontrar localmente. O modelo também aparecia num período de urbanização e formação de novos bairros.
A empresa já tinha experiência em vender praticamente tudo pelo correio, de ferramentas a roupas. Colocar uma casa no mesmo sistema parecia ousado, mas aproveitava a mesma rede de distribuição e confiança. O catálogo transformava arquitetura em produto comparável, com planta, preço e imagem lado a lado.
Ainda existem casas de catálogo espalhadas pelos Estados Unidos?
Sim. Pesquisadores e moradores continuam identificando possíveis Sears Homes por detalhes de planta, ferragens, marcações na madeira e comparação com catálogos antigos. Como modelos semelhantes também foram construídos por outras empresas e por construtores locais, a identificação exige mais do que reconhecer uma fachada parecida.
O mais curioso é que muitas continuam sendo apenas “a casa da esquina” para quem passa. Por trás de paredes reformadas pode existir uma residência que começou como páginas de catálogo e vagões cheios de peças. Muito antes do comércio eletrônico, a Sears já vendia algo difícil de imaginar dentro de um carrinho de compras: uma casa inteira para montar.