No topo de vulcões congelados, estes animais desafiam o frio, a fome e a falta extrema de oxigênio
No alto de vulcões congelados, onde um ser humano mal conseguiria permanecer por algumas horas, pequenos ratos correm entre pedras
No alto de vulcões congelados, onde um ser humano mal conseguiria permanecer por algumas horas, pequenos ratos correm entre pedras, enfrentam noites brutais e encontram comida onde quase nada cresce. A 6.739 metros de altitude, esses animais não estão apenas resistindo. Eles transformaram um dos lugares mais hostis da Terra em seu próprio território.

Ratos vivem acima do limite considerado possível
Os ratos-de-orelhas-folha andinos foram encontrados no cume do Llullaillaco, vulcão adormecido na fronteira entre Chile e Argentina. O local fica mais de 1,6 quilômetro acima do assentamento humano permanente mais elevado do planeta e apresenta frio intenso, ar rarefeito, pouca água e vegetação quase inexistente.
Em 2020, uma equipe liderada por Jay Storz, professor da Universidade de Nebraska-Lincoln, registrou os animais a 6.739 metros. Até então, acreditava-se que mamíferos não conseguiriam viver permanentemente acima de aproximadamente 5.500 metros. A descoberta empurrou esse limite para uma altitude jamais documentada.

Como eles suportam frio e pouco oxigênio?
Entre 2020 e 2023, pesquisadores estudaram populações encontradas desde o nível do mar até os picos andinos. Testes realizados no Chile mostraram que os ratos das maiores altitudes conseguem preservar o calor corporal e manter o fornecimento de oxigênio com mais eficiência do que seus parentes das regiões mais baixas.
O estudo publicado na revista Science revelou mudanças ligadas ao funcionamento do organismo em ambientes extremos. Para Storz, que também é alpinista, imaginar pequenos mamíferos vivendo nesses cumes é impressionante, já que nem uma pessoa bem aclimatada suportaria permanecer ali por muito tempo.
Quais truques garantem a sobrevivência?
Os ratos precisaram resolver três problemas ao mesmo tempo: respirar, conservar calor e encontrar alimento. A equipe descobriu que a espécie reuniu diferentes estratégias para aproveitar as poucas oportunidades disponíveis, mesmo quando isso significa consumir plantas que fariam mal a outros animais.
- Manutenção mais eficiente da temperatura corporal;
- Melhor aproveitamento do pouco oxigênio disponível;
- Capacidade de neutralizar substâncias tóxicas das plantas;
- Maior atividade durante as horas mais quentes do dia.
Pesquisadores da Universidade McMaster identificaram alterações genéticas que ajudam na digestão e na eliminação de compostos tóxicos. Essa vantagem permite aproveitar a vegetação escassa dos vulcões. Sair durante o dia também pode oferecer temperaturas menos severas e menor risco de encontro com predadores.

Viver tão alto também oferece vantagens
As montanhas parecem oferecer apenas dificuldades, mas existe uma recompensa importante: pouca concorrência. Graham Scott, professor de biologia da Universidade McMaster, acredita que a busca por espaços com menos competidores pode ter levado os ratos cada vez mais alto, onde também encontram menos animais capazes de caçá-los.
Mesmo separados por milhares de metros de altitude, os grupos continuam geneticamente semelhantes. Isso mostra que existe contato entre populações das áreas baixas, médias e elevadas. Em vez de formar uma espécie isolada nos cumes, os ratos parecem circular por uma faixa ambiental extraordinariamente ampla.
Os reis das montanhas desafiam o impossível
Scott afirma que a principal mensagem da descoberta é a capacidade da vida de encontrar soluções onde a sobrevivência parece inviável. Esses pequenos roedores venceram o frio, a fome e a falta de oxigênio sem equipamentos, abrigos ou reservas, tornando-se fortes candidatos ao título de animais terrestres que vivem na maior altitude.
Conhecer esses limites é urgente porque ambientes extremos podem guardar respostas sobre adaptação e resistência que ainda nem imaginamos. Os ratos dos Andes mostram que o impossível pode estar apenas alguns metros acima. Proteger e estudar esses lugares agora é a única forma de descobrir até onde a vida realmente consegue chegar.