Novo Ciência sem Fronteiras prevê bolsas para medalhistas de olimpíadas do ensino médio competirem no exterior

Plano do MEC inclui pela primeira vez adolescentes e ainda não tem orçamento, número de vagas nem data

O novo Ciência sem Fronteiras, que o Ministério da Educação estuda recriar, deve abrir espaço para um público que o programa nunca atendeu: alunos do ensino médio. Pela proposta, estudantes que ganharem medalha em olimpíadas nacionais do conhecimento receberiam bolsa para disputar as etapas internacionais dessas competições fora do país.

A informação foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada por reportagem do jornal O Globo, com base em fontes do MEC. Ainda não há portaria, edital nem anúncio oficial. O que existe é o desenho que a pasta discute desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que prometeu a volta do programa durante a campanha.

No programa original, só universitários e pós-graduandos eram atendidos – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
No programa original, só universitários e pós-graduandos eram atendidos – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que muda para os alunos do ensino médio

No formato que funcionou entre 2011 e 2017, o Ciência sem Fronteiras era voltado a quem já estava na universidade. A inclusão do ensino médio é a principal novidade do plano.

A ideia, segundo O Globo, não é mandar o adolescente fazer um semestre de intercâmbio. A bolsa serviria para custear a ida do medalhista às fases internacionais das olimpíadas, quando ele representa o Brasil contra estudantes de outros países.

Na prática, isso pode tirar um peso das famílias. Hoje, a Olimpíada Brasileira de Matemática escolhe por provas de seleção e treinamentos os estudantes que formam as equipes do país em competições como a Olimpíada Internacional de Matemática. Para quem não é chamado aos treinamentos e quer participar mesmo assim, a própria OBM avisa que o aluno arca com todos os custos.

Quais olimpíadas devem contar?

A única competição citada como exemplo nas reportagens é a de Matemática. O MEC ainda não divulgou a lista de olimpíadas que dariam direito à bolsa, nem se ela vale para medalha de ouro, prata e bronze ou só para os primeiros colocados.

Também não se sabe se haverá algum critério de renda ou de rede de ensino. Esse ponto pesa para famílias de escolas públicas e de cidades pequenas, onde uma passagem internacional costuma estar fora do orçamento de casa.

Se a regra for bem feita, é uma das formas mais baratas de premiar talento jovem. Um medalhista que compete lá fora ganha experiência e convive com estudantes de outros países.

Graduação e pós voltam com foco em IA e soberania

O programa não ficaria restrito ao ensino médio. De acordo com O Globo, a nova versão também prevê bolsas de graduação sanduíche, em que o aluno faz parte do curso no exterior e volta para concluir no Brasil, nas áreas de engenharia, matemática aplicada, inteligência artificial e eficiência energética.

Na pós-graduação, mestrandos, doutorandos e pesquisadores de pós-doutorado teriam bolsas sanduíche ligadas a temas de defesa, soberania, minerais críticos e terras raras.

Lula já tinha antecipado a intenção em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, segundo o jornal: “Vou reeditar aquele programa Ciência sem Fronteiras para mandar a pessoa estudar lá fora coisas extremamente importantes para nós”.

Quando abre a seleção e quanto vai custar?

Essas são as respostas que ainda faltam. O Globo informa que não há definição sobre quantos alunos seriam atendidos nem sobre o orçamento necessário. Também não está decidido se a seleção começaria já em 2027.

O dinheiro é o nó. Durante a campanha, o presidente também prometeu universalizar o Pé-de-Meia e estender o benefício a universitários de baixa renda, o que aperta as contas do Ministério da Educação.

Para quem está no ensino médio e sonha em estudar fora, o melhor caminho agora é seguir participando das olimpíadas e acompanhar os canais oficiais do MEC, da Capes e do CNPq. Enquanto o programa não sai do papel, há outras rotas, como buscar bolsa em universidades americanas fora do circuito mais famoso.

Por que o programa original acabou

O Ciência sem Fronteiras foi lançado em 2011, no governo Dilma Rousseff, com a meta inicial de conceder 101 mil bolsas até 2014. Segundo O Globo, 104 mil estudantes de graduação e pós-graduação foram contemplados até 2017. A gestão era dividida entre a Capes e o CNPq.

O inglês foi um dos gargalos. O governo chegou a criar o Inglês sem Fronteiras para ajudar os candidatos a atingir a proficiência cobrada pelas universidades estrangeiras. Quem quer se preparar desde já pode treinar o idioma com as mesmas estratégias de leitura em inglês usadas no Enem.

No governo Michel Temer, a gestão do então ministro Mendonça Filho considerou o programa caro demais e argumentou que ele não trouxe os resultados esperados, por causa da deficiência em inglês dos bolsistas e da falta de regras claras sobre que perfil de estudante deveria ser financiado. A nova versão, mais enxuta e com áreas definidas, parece responder a essas críticas.